Fé é ter fidelidade a um propósito

 

O professor, filósofo e humanista brasileiro, Huberto Rohden, no seu livro “A Mensagem Viva do Cristo” refere que “se o espírito humano não está sintonizado com o espírito de Deus, ele não tem fé, embora talvez creia. Esse homem pode, em teoria, aceitar que Deus existe e, apesar disso, não ter fé. Ter fé é estar em sintonia com Deus, tanto pela consciência como também pela vivência, ao passo que um homem sem sintonia com Deus pela consciência e pela vivência, pela mística e pela ética, pode crer vagamente em Deus. Crer é um ato de boa vontade; ter fé é uma atitude de consciência e de vivência” [1]

Fé significa fidelidade aos propósitos da missão de vida de cada um. Se soubermos a nossa missão e tivermos objetivos claros, saberemos fazer o caminho a que nos predestinámos. O propósito é simples, mas de difícil realização, pois visa a transformação de relações de ódio, ou desamor, em amor. Quando hesitamos ficamos a flutuar entre as promessas de amor a concretizar com a reencarnação e o resultado das relações de ódio do pretérito, agora transportadas para um novo presente. A flutuação entre o amor e o ódio gera ansiedade no indivíduo podendo desequilibrá-lo física e mentalmente. Com a perturbação causada surgem os problemas de saúde [2]. A fidelidade ao propósito da vida convoca-nos à conciliação e à evolução, confiando que aquilo que ainda não alcançamos está a ser preparado por nós, fruto do nosso trabalho íntimo, e para nós, por quem vela pelo nosso bem na sintonia do bem que realizamos pelos outros. É tal como referido por Leon Denis:

“fé é a confiança da criatura em seus destinos, é o sentimento que a eleva à infinita Potestade, é a certeza de estar no caminho que vai ter à verdade. A fé cega é como farol cujo vermelho clarão não pode trespassar o nevoeiro; a fé esclarecida é foco eléctrico que ilumina com brilhante luz a estrada a percorrer.” [3]

E continua Leon Denis:

“Ninguém adquire essa fé sem ter passado pelas tribulações da dúvida, sem ter padecido as angústias que embaraçam o caminho dos investigadores. Muitos param em esmorecida indecisão e flutuam longo tempo entre opostas correntes. Feliz quem crê, sabe, vê e caminha firme. A fé então é profunda, inabalável, e habilita-o a superar os maiores obstáculos. Foi neste sentido que se disse que a fé transporta montanhas, pois, como tais, podem ser consideradas as dificuldades que os inovadores encontram no seu caminho, ou seja, as paixões, a ignorância, os preconceitos e o interesse material.” [idem]

É mais fácil mistificar se não compreendermos e se não soubermos raciocinar quando são lançadas novas perguntas, nomeadamente quando o questionamento desacomoda o nosso conformismo, os que temem pela perca de poder, ou que quem manter o controle de território. Mas que território é esse? É o território material (efémero) que muitos ainda crêem ser o único que compõe a sua existência, negligenciando a componente espiritual (perene).

A compreensão da realidade a partir da perspetiva espiritual é exigente e obriga-nos a largar preconceitos e a ajustar tradições. A nova perspetiva impele-nos a mais educação para que se perceba uma dimensão para a qual fomos treinados a não ver. Por isso ela nos causa estranheza. Mais, a ela associa-se o tema da morte, quando deveria ser a vida. Na terra o espírito encarnado perfaz os seus exercícios de evolução e o corpo encontra a sua finitude. Com a morte do corpo, o espírito, nós, continuamos o nosso percurso, agora no plano espiritual, onde está a origem e o destino do espírito. Esta noção entrópica da evolução espiritual encerra a explicação do ciclo natural da vida e a sua compreensão conduz-nos à distinção entre crença e fé, tal como referido por Huberto Rohden:

“crer é um ato de boa vontade; ter fé é uma atitude de consciência e de vivência”. [1]

Tal como explica Rodhen, “desde os primeiros séculos do Cristianismo, quando o texto grego do Evangelho foi traduzido para o latim, principiou a funesta identificação de crer com “ter fé”. A palavra grega para fé é pistis, cujo verbo é pisteuein. Infelizmente, o substantivo latino fides, equivalente a pistis, não tem verbo e, assim, os tradutores latinos viram-se obrigados a recorrer a um verbo de outro radical para exprimir o grego pisteuein, ter fé. O verbo latino que substituiu o grego pisteueiné credere que, em português, se traduz por “crer”. Nenhuma das cinco línguas neolatinas — português, espanhol, italiano, francês, romeno — possui verbo derivado do substantivo fides. Todas essas línguas são obrigadas a recorrer a um verbo derivado de credere. Ora, a palavra pistisou fidescsignifica originariamente harmonia, sintonia, consonância. Ter fé é estabelecer ou sentir sintonia, harmonia entre o espírito humano e o espírito divino” [1].

Assim, ter fé é raciocinar, é formular a vida com o otimismo que a nossa compreensão consegue alcançar; é também saber viver com resiliência as dificuldades do presente; através das quais será possível compreender a escala do tempo em que o Espírito vive, em que vivemos.

Por conseguinte, quando muitos julgam ter fé, o que têm é boa vontade. Esta boa vontade está no esforço das pequenas coisas, está no crer o que se deseja. Está ainda no equívoco da fé religiosa causadora de cegueira e ignorância, se depurada do uso da razão, tal como referido por Leon Denis:

“É cega a fé religiosa que anula a razão e se submete ao juízo dos outros, que aceita um corpo de doutrina verdadeiro ou falso, e dele se torna totalmente cativa. Na sua Impaciência e nos seus excessos, a fé cega recorre facilmente à perfídia, à subjugação, conduzindo ao fanatismo. Ainda sob este aspecto, é a fé um poderoso incentivo, pois tem ensinado os homens a se humilharem e a sofrerem. Pervertida pelo espírito de domínio, tem sido a causa de muitos crimes, mas, em suas consequências funestas, também deixa transparecer suas grandes vantagens. Ora, se a fé cega pôde produzir tais efeitos, que não realizará a fé esclarecida pela razão, a fé que julga, discerne e compreende?” [idem].

Neste sentido, se a fé não confrontar a razão face a face, os feitos de cura de Jesus manter-se-ão nas brumas místicas do milagre, em vez de clarificados à luz do conhecimento da mediunidade e dos efeitos do magnetismo. Um exemplo disto é o designado milagre da cura do paralítico de Cafarnaum.

“Como lhe apresentassem um paralítico deitado em seu leito, Jesus, notando-lhe a fé, disse ao paralítico: Meu filho, tem confiança; perdoados te são os teus pecados.” (…) “O paralítico se levantou imediatamente e foi para sua casa.” (A Génese, Allan Kardec, Cap. XV, nº 14).

Se compreendido o feito de cura e que o sentido do perdão dos pecados é equivalente ao merecimento pela mudança de conduta – aquela que por decorrência da lei de causa e efeito o conduziu à paralisia – então, deixa de haver lugar para a exceção. O feito de Jesus passa a poder ser aceite como um facto e repetível, se realizado em circunstâncias semelhantes de conhecimento, evolução espiritual e fé (tal como aconteceu, por exemplo, com as curas ministradas pelos Apóstolos). Factos repetíveis, à dimensão possível, por intermédio do magnetismo e compreensão das relações de colaboração entre ambos os lados da vida.

A fé está, então, no compromisso assumido connosco próprios em relação aos que nos rodeiam. Mais, “se fora da caridade não há salvação”, pelo egoísmo nunca galgaremos as etapas da evolução. Só a ignorância nos afasta do compromisso de vencer as relações desavindas. E se é difícil dar a outra face comecemos por nos tornar mais permeáveis às tentativas de reconciliação. Por outro lado, escutemos o nosso íntimo, pois “(…) a verdadeira fé está na convicção que nos anima e nos arrebata para os ideais elevados. Há a fé em si próprio, em uma obra material qualquer, a fé política, a fé na pátria. Para o artista, para o pensador, a fé é o sentimento do ideal, é a visão do sublime final aceso pela mão divina nos alcantis eternos, a fim de guiar a Humanidade ao Bem e à Verdade.” [idem].

A fé é também um instrumento para a comunicação com a espiritualidade superior (via glândula pineal) que nos apoia o raciocínio pela via da inspiração e da intuição. A fé não é um estado psicológico passivo, contemplativo ou de simples crer. E porque nos liga a inteligência residente para lá da realidade material, tem um atributo de providência divina. Neste âmbito “a providência é a solicitude de Deus para com suas criaturas. Deus está em toda parte, tudo vê e tudo preside, mesmo às coisas mais insignificantes. É nisto que consiste a ação providencial. […].”[4]

Porém, quando fraquejarmos no esforço para reduzirmos a flutuação entre amor e ódio, lembremos o episódio de Paulo de Tarso (Saulo de Tarso) quando cai do cavalo na estrada para Damasco. Paulo, que cegou nesse instante e que ouviu Cristo a perguntar-lhe: “Saulo, Saulo, porque me persegues?” [5]. Tal como Paulo, que aguardou por Ananias para saber como prosseguir na sua vida (Ananias, aquele que Paulo ia buscar a Damasco para punir, mas que o episódio com Jesus tudo alterou), também nós podemos aguardar que a resposta sobre como cumprir os nossos objetivos nos cheguem. Mas não percamos tempo. Enquanto aguardamos, trabalhemos a nossa reforma íntima, sejamos pacientes face às agruras do caminho e não confundamos o crer com a fé. Pois, o objectivo é usar a força da razão. Por isso, não aguardemos sem esforço, sem instrução, sem oração e vigilância do pensamento.

E se soubermos fazer a nossa parte no trabalho de harmonia com Deus, a ajuda pedida surge à dimensão do nosso merecimento, do que é preciso aos olhos de Deus – em suma, em função do resultado da causa que produziu o efeito que nos leva a pedir ajuda. Mistificar o pedido de ajuda afasta-nos da racionalidade sobre o que poderemos alcançar, afasta-nos da utilização da nossa inteligência para agir.

Ter fé aproxima-nos da racionalidade, da compreensão sobre como vivenciar o presente e onde buscar soluções em nós e no todo junto do qual procuramos a harmonia. E ela está entre encarnados (ser humano) e espíritos superiores. Mas para se perceber a solidariedade existente entre estes dois lados da vida temos de raciocinar à escala desse espaço – tempo. Se estivermos atentos percebemos que a fé pode estar intimamente associada aos níveis de auto-estima, autoconfiança, compreensão de um todo ao qual estamos ligados, mas também aos estados de ansiedade. Se temos relações difíceis nos grupos aos quais estamos ligados, como por exemplo na família, no trabalho, na vizinhança, etc., busquemos a harmonia. E se a flutuação se mantiver, aguardemos pelo nosso Ananias, mas sem nunca perder o alinhamento com os nossos objetivos: a fé.

Por isto se afirma que:

“A fé é mãe dos nobres sentimentos e dos grandes feitos. O homem profundamente firme e convicto é imperturbável diante do perigo, do mesmo modo que nas tribulações. Superior às lisonjas, às seduções, às ameaças, ao bramir das paixões, ele ouve uma voz ressoar nas profundezas da sua consciência, instigando-o à luta, encorajando-o nos momentos perigosos. Para produzir tais resultados, necessita a fé repousar na base sólida que lhe oferecem o livre exame e a liberdade de pensamento. Em vez de dogmas e mistérios, cumpre-lhe reconhecer tão-somente princípios decorrentes da observação direta, do estudo das leis naturais. Tal é o carácter da fé espírita. A filosofia dos Espíritos vem oferecer-nos uma fé racional e, por isso mesmo, robusta. O conhecimento do mundo invisível, a confiança numa lei superior de justiça e progresso imprime a essa fé um duplo carácter de calma e segurança.” [3]

Em síntese e tal como refere Gaston Luce sobre fé e Espiritismo, no livro “Léon Denis, O Apóstolo do Espiritismo, sua Vida e Obra”:

“A fé espírita termina, com efeito, no amor, porém aconselha, inicialmente, o conhecimento da alma, do destino e de Deus. Não é somente uma fé, é um ensino, “um critério que desafia a contradição”. Espiritismo, tal como se apresenta neste contexto, é uma doutrina “baseada na Ciência, na Razão, com uma fé universalista, em substituição à fé especial das religiões reveladas.” [6]

 

Referências

[1] ROHDEN, Huberto, A Mensagem Viva do Cristo. Martin Claret; 2ª Edição, Brasil, 2007.

[2] OLIVEIRA, Felipe, Fé e Cura, palestra pública na ASCEV, Viseu, março de 2018. Recuperado de https://www.youtube.com/watch?v=pzGX4PCSn3w.

[3] Fé, Esperança, Consolações. Recuperado de http://www.institutoandreluiz.org/estudo_sobre_a_fe.html#feespirita

[4] KARDEC, Allan, A Génese, Hellil, 2018.

Título: A Génese

[5] XAVIER, Francisco Cândido, Paulo e Estevão, orientado pelo Espírito Emmanuel, FEB, p. 394,2004.

[6] LUCE, Gaston, Léon Denis, O Apóstolo do Espiritismo, Sua Vida e Obra. CELD, 2010. Recuperado de [conteúdo resumido]http://bvespirita.com/Leon%20Denis,%20O%20Apostolo%20do%20Espiritismo%20-%20Sua%20Vida,%20Sua%20Obra%20(Gaston%20Luce).pdf.