Eutanásia: direito à ignorância ou ao crime?

 

“Quando uma pessoa vê diante de si uma morte inevitável e terrível, será culpada se abreviar de alguns instantes os seus sofrimentos por uma morte voluntária?” “É sempre culpado por não esperar o termo fixado por Deus. Está-se desde logo bem certo que esse termo haja chegado apesar das aparências, e que não se possa receber um socorro inesperado no último momento?”

(“O Livro dos Espíritos”, Allan Kardec, questão nº 953) [1]

A vida continua

O sofrimento é um estado contínuo de dor e que se reflete tanto na enfermidade do corpo, como na falta de ânimo para viver a dor. Provavelmente todos concordam com esta interpretação. Onde deixamos de concordar é na compreensão que a vida continua depois da morte, do corpo. E se não entendermos isto fica ainda mais difícil dar sentido à dor e à razão de a aceitarmos. Sobretudo ao facto de que mesmo fechados num corpo enfermo a alma pode continuar a ser nutrida, e, por ela, nutrir outros. A nossa missão não se esgota em nós, mas estendesse a todos a quem se entregar tempo, afeto, coragem, amor.

Entre os que concordam e os que discordam do que foi referido atrás há quem aceite a existência de Deus. Uns acreditam e não põem em causa, ou por crença e entendimento do seu inconsciente, outros por conveniência, pois temem pensar diferente disto. E outros há que tentam pôr algum raciocínio em torno das evidências. Estes, pelo menos, compreendem que sem uma causa primeira e inteligente para existirmos, para que houvesse a criação que conhecemos, nada fazia sentido. Afinal, se o “nada” não dá início a nada, o dito Big Bang não poderia ter existido, nem o que se conhece do universo, menos ainda, cada um de nós.

Dito isto é razoável raciocinar que do caos não se teria a harmonia do universo, nem as leis que regem a matéria e a vida dos seres, nomeadamente a dos espíritos (das almas). Deus existe! Como?

Jesus explicou-o. Explicou ainda sobre a continuidade da vida para lá do corpo. Mas muito teve de ficar por explicar, nomeadamente sobre o que havia de ciência sobre a comunicabilidade dos espíritos, sobre a base filosófica que permitia aproximarmo-nos pelo raciocínio das alegorias do Cristo, mas também, sobre a nossa natural religação a Deus, ou seja, sobre as consequências religiosas da nossa vida (o que é diferente da realidade religiosa terrena, aquela que está encerrada em instituições e à dimensão dos interesses dos Homens).

No séc. XIX surge o compêndio de conhecimento anunciado como o consolador, pois consolaria as almas sem esperança sobre o propósito da sua existência concretizando o que há 2000 anos não era razoável explicar-se. Hippolyte Léon Denizard Rivail, destacado pedagogo da academia de ciências francesa, e discípulo do reformador educacional Johann Heinrich Pestalozzi, seria o responsável por redigir cinco livros a partir do testemunho dos Espíritos. A este compêndio de novo conhecimento daria o nome de espiritismo (neologismo por si criado). Para assinar aquelas obras Rivail adotaria o pseudónimo de Allan Kardec. Fê-lo no sentido de lhes conferir credibilidade pelo método e factos estudados e não por Rivail ser um destacado membro das ciências.

Pondo estes factos a claro podemos aceitar as premissas da continuidade da vida depois da morte do corpo e de que nascer não é um acaso. A vida no corpo tem o sentido de escola, o sentido de nos ajudar a vencer as nossas dificuldades morais e fortalecermo-nos intelectualmente.

 

Morte assistida

Sabendo aquelas premissas, será que é melhor pôr termo à vida se perdemos a esperança e vivemos invadidos por dores que dilaceram? Deveremos ajudar a morrer quem julga que já nada tem a ganhar com a sua existência?

É difícil viver quando o sofrimento e a desesperança invadem a razão, sobretudo quando não se compreende que a morte é apenas para o corpo, pelo que a vida continua e a fonte do sofrimento também. O sofrimento termina quando o espírito ultrapassa as consequências morais do débito, por isso, a eutanásia não resolve. Aliás, agrava o débito, ou seja, gera consequências morais, logo, novas dores a terem de ser vividas. Assim, a resposta às questões acima é claramente não, pois os argumentos em favor da vida são lógicos e defendem a pessoa.

Além do mais são conhecidos os tormentos pelos quais passam os espíritos que atentam contra a própria vida, tal como sucede com os suicidas – e a eutanásia é um suicídio. Os testemunhos dos espíritos que desencarnaram desta forma estão disponíveis em diversas obras espíritas e relatam o que vivenciaram durante o tempo em que se encontraram mergulhados em dores sem alívio como consequência dos seus atos.

A eutanásia é discutida como a etapa em que a pessoa deve ter o direito de escolha sobre a morte, quando deveria ser encarada como a etapa da consciência, em que a vida nos confronta com o último exercício de humildade e fé. Humildade para aceitarmos que nada é em vão, e fé, raciocinada, para sentirmos/compreendermos que estamos sempre amparados e que aquilo que nos acontece visa o nosso bem, sempre.

Somos corpo e alma, pelo que a alma também tem de ser cuidada e compreendida. A doença não nasce no corpo – expressa-se nele, pelo que é a transformação interior que permite evitar ou retardar a manifestação da doença que é resultado do comportamento e causas pretéritas. O registo da informação sobre as consequências do comportamento em vidas passadas está no perispírito – corpo espiritual que faz o permeio entre o corpo e o espírito. A informação sobre a causa que nos faz viver os efeitos vive em nós – e isto não é uma conceção doutrinária, é ciência. A lei de causa e efeito é a lei de ciência que se expressa sobre a vida do espírito, tal como, por exemplo, a lei da gravidade se expressa sobre os corpos físicos na Terra. A vivência de débitos derivados de vidas passadas é, pois, o efeito face às causas, não um castigo. É uma expressão de ciência.

Todavia, face aos tormentos terrenos, muitos se perguntarão: Por que razão Deus não se compadece com essas dores, evitando o sofrimento? A resposta pode ser obtida numa experiência vivenciada pelo médium brasileiro Francisco Cândido Xavier (Chico Xavier). A propósito de uma visita sua à casa de uma pessoa acamado há vários anos num estado praticamente vegetativo, a pessoa que acompanhava Chico questionou-o sobre que razões teria Deus para que aquela pessoa fosse mantida em vida na Terra e naquele estado de doença.

Perante a questão Chico recebe um esclarecimento do seu guia espiritual, Emmanuel, que lhe explica (pela comunicação de pensamento, ou seja, pelo veículo da mediunidade de Chico) que o comportamento do acamado noutras vidas tinha causado imenso sofrimento a muitas pessoas. Os espíritos vítimas das suas agressões há muito que o procuravam no plano espiritual. Queriam sujeitá-lo às mesmas sevícias pelas quais passaram, queriam vingança.

Por aqui podemos compreender o alcance da Misericórdia de Deus num contexto com este. O indivíduo, acamado, enquanto vivia as consequências da lei de causa e efeito – expressas no seu estado de saúde, ganhava a oportunidade do ensinamento da humildade – que com certeza desconhecia nas suas vidas passadas. Nessa condição de doença, por um lado, estava impedido de cair nos mesmos erros do passado, por outro, ficava sujeito a uma total dependência de terceiros. Tais factos contribuíam para que o seu espírito se humildasse e se fosse aprimorando moralmente. Por outro lado, enquanto o espírito se mantinha num corpo, na Terra, estava a salvo dos espíritos que o procuravam no outro lado da vida visando a vingança.

E como todos vivemos o resultado da lei de causa e efeito, não há determinismo, e também não se vive com um Deus que protege diretamente uns, ou impede as ações de outros, pois todos dispomos de livre-arbítrio. Deus proporciona as Leis que são ponderadas em função do esforço de mudança de comportamento moral de cada um. Neste sentido, talvez possamos compreender um pouco a força da fé, que ajuda ao exercício da aceitação face a dificuldades. Dificuldades que podem terminar a qualquer momento face à ponderação da lei de causa e feito como referido. Desesperar e desistir é o contrário disto podendo conduzir a novas dores.

Na perspetiva terrena, a condição daquela reencarnação do doente acamado estava plena de infortúnio, mas se vista por uma perspetiva mais ampla – espiritual, aquela vivência estava, afinal, numa condição de grande beneficência de Deus.

De facto, Deus, pela aplicação das suas leis, evitava que os perseguidores agravassem as suas penas – o que aconteceria se pudessem exercer a vingança ou ter acesso a condições para o fazerem (antes de terem ocasião para a reconciliação – que pode tardar, até ter recaídas, mas que é inevitável), e gerava a oportunidade para que se fossem libertando do ódio sentido. Como? Colocando-os em vivências desencontradas até que num futuro houvesse condições para se ensaiar a reconciliação, juntando-os, talvez, pelos laços de sangue.

Este é um caso elucidativo da misericórdia de Deus, mas também do nível de ignorância espiritual em que ainda nos encontramos para percebermos o equilíbrio das leis que regem a vida, física e espiritual (moral). Como habitualmente olhamos a vida apenas a partir da realidade material, pelo que nos é difícil perceber a dimensão e significado da espiritual e como ambos os planos da vida se intercetam incorporando a misericórdia de Deus. Misericórdia que muitas vezes nos falha para com as faltas dos outros.

Porém, o esforço face à dor também deve ser ponderado do lado de quem decide políticas públicas de saúde. O investimento em cuidados paliativos assume aqui particular relevância. Estes cuidados são a resposta mais adequada face à dor que já não tem cura, no corpo, mas cujo bem-estar (do corpo e da alma) é importante nutrir pelo afeto e cuidados, até que o espírito se liberte do corpo enfermo.

No livro “Saúde – Trilha de Transformação” (p. 416) [2] é referido que uma das formas para se contribuir para a resolução do problema da dor é centrar as políticas de saúde pública na educação sobre saúde e causas da doença. Se nos focarmos na reforma íntima do indivíduo trabalharemos as causas, pois estaremos a conduzir uma proposta que incorporará o instrumento do “conhece-te a ti mesmo”. Esta proposta vai muito para lá da forma redutora com que habitualmente resumimos o ganho de saúde, ou seja, na alimentação e no exercício físico, apenas.

Neste sentido, se a dor tem de ser vivida, é muito importante que o indivíduo se eduque espiritualmente, mas também que haja investimento público ao nível dos recursos e da educação sobre o que é saúde numa perspetiva que inclua o indivíduo no seu todo – pois somos mais do que apenas um corpo a viver consequências físicas de uma existência única. O investimento público deve ser em favor da vida, não da morte – pelo apoio (devido à nossa ignorância) ao suicídio, à desistência, tal como acontece com a aceitação da eutanásia.

Além do mais, a possibilidade da eutanásia, quando outorgada na lei, coloca o profissional de saúde em grandes dificuldades morais, pois, “é mais fácil para o médico prescrever medicação letal, do que o cuidado para com o paciente terminal, especialmente quando o paciente não tem família ou amigos” (idem). Note-se, que criar um instrumento de homicídio e retirar defesas a quem não as tem é, no mínimo, errado.

Sobre esta problemática o Espírito Emmanuel recorda-nos o seguinte:

“a ciência humana é sempre um facto admirável, em transformação constante, embora respeitável pelos benefícios que presta. No entanto, não te esqueças de que a vida é sempre formação divina e, por isso mesmo, em qualquer parte, será sempre um acto de permanente amor.” (p. 157) [3]

Por fim, lembrar o que os espíritos disseram a Allan Kardec sobre esta questão:

Ninguém, por agora, nas áreas do mundo físico, pode calcular a importância de alguns momentos ou de alguns dias para o espírito temporariamente internado num corpo doente ou disforme.” (“O Livro dos Espíritos”, Allan Kardec, questão nº 953)

 

Referências

[1] KARDEC, Allan, O Livro dos Espíritos, Publicações Hellil.

Título: O Livro dos Espíritos

[2] PIRES, José H. (autor), XAVIER, Francisco, C. (Médium) , por diversos Espíritos, Diálogo dos Vivos, GEEM.

[3] Diversos autores, organizado por Lígia Pompeu, Saúde – Trilha de Transformação, AME-MG.