Quem sou eu?

 

Quem sou eu, está definido dentro e através das minhas relações com os outros: Eu completo-me através dessas relações e não existo fora delas. Portanto, o meu trabalho em prol de outros é simultaneamente trabalho em prol de mim mesmo.”

(EE Sampson, 1988 – Psicólogo americano)

Edward E. Sampson [1] convida-nos a refletir sobre o que somos observando a forma como lidamos com os outros. É uma reflexão justa e suficiente para encararmos a vida, mas apenas a partir da perspetiva terrena. Porém, nós já nascemos antes, pelo que já vivemos outras existências. Somos portadores de uma herança intelectual e moral, que traz consigo todo um historial de interações sociais e espirituais. Neste sentido, há que dar atenção à volubilidade do pensamento face à sugestão das pessoas e dos espíritos Somos a decisão de hoje, face ao que sabemos que sabemos e aos registos no nosso inconsciente do que fomos. Ali residem cicatrizes profundas fruto das nossas quedas morais, ensinamentos e liames de amor. Somos o resultado da forma como fizemos o bem, como fizemos o mal e como não soubemos fazer todo o bem que podíamos ter feito. Somos o “eu” que resulta deste conjunto. E sendo assim, será que sabemos o tipo de “eu” que somos? Atente-se primeiro à forma como alguns campos da ciência analisam empiricamente as diferenças de interação a partir da personalidade de cada um. Em geral, a personalidade é entendida como um sistema psicológico formado por partes interdependentes que ajudam os seres humanos a lidar com ambientes sociais complexos. Uma das linhas de investigação que neste âmbito reúne maior consenso designa-se por modelo de personalidade Big Five(B5), inicialmente desenvolvido por Ernest Tupes e Raymond Christal, em 1961. O B5 é um sistema de traços independentes, relativamente estáticos, baseado em cinco traços de personalidade, pelos quais se procura explicitar as emoções que agem como sistema de autorregulação do quadro psicológico de cada indivíduo. Isto, a partir do pressuposto de que a regulação se ajusta a partir de metas pessoais ou resultantes da socialização. Este sistema debruça-se sobre a forma como cada indivíduo se vê socialmente e age em relação aos outros. Esses traços são a extroversão (i.e., a sociabilidade, assertividade), negatividade e neuroticismo (i.e., tendência para emoções instáveis), afabilidade (i.e., ser-se cooperativo, de confiança), atenção e abertura para a experiência (i.e., imaginação, sentimentos, ações, ideias), consciência (i.e., competência, autodisciplina, reflexão, orientação para objectivos) [2], [3], [4]. Estas e outras abordagens da ciência caracterizam o ser humano a partir da visão da matéria afirmando que somos essencialmente resultado de fatores genéticos e da sua interação com o meio físico e sociocultural envolventes. Neste âmbito, importa conhecer a abordagem que caracteriza o indivíduo na sua interação com o meio envolvente, ou seja, relativa à análise da construção do “Eu superior” (Self) e do equilíbrio do ego. Esta interação influencia a formação da personalidade e a relação com o meio visando a formulação de respostas dentro de um quadro psicológico equilibrado, tal como tratado pelo Espírito Joanna de Ângelis, na psicografia de Divaldo Franco, na obra “Refletindo a Alma” [5]. Neste sentido, a personalidade humana reflete o que cada um é, como pensa e reage a si mesmo, na dialética entre o Self e o ego, bem como aos outros que o rodeiam. Tudo isto, como resultado das escolhas feitas e refletem a dualidade de interações sociais (físicas) e espirituais (de cariz ético-moral). Estas interações presidem à mente espiritual que, através de princípios eletromagnéticos do campo vital, comandam as forças subconscientes sob a determinação directa da vontade. As ondas eletromagnéticas do pensamento são captadas pela glândula pineal (que funciona como um router e que se localiza na nossa cabeça), que ao fazerem vibrar os cristais de apatita ali formados transformam aquelas ondas em estímulos neuro químicos [6]. Neste contínuo de interação vai-se moldando o presente e o provir da personalidade do indivíduo, sempre sob o domínio da sua própria vontade, que lhe molda a conduta. A personalidade enquanto reflexo moral do comportamento é, a cada reencarnação, a caixa de instrumentos que ajudam a expandir ou a limitar as tendências de cada um. Tendências que devem ser alinhadas com os valores morais, a par do desenvolvimento intelectual. Por isto, estamos naturalmente orientados a fazer o bem e não o mal, a sermos solidários, caridosos (não apenas materialmente, que será a forma mais fácil), e a ganharmos consciência sobre a causa e o efeito das nossas ações. Tudo isto tem implicação na expansão ou limitação da personalidade por forma a nos calibrarmos moralmente. E se na criação de Deus nada é feito sem um propósito, que é sempre bom, como encontrá-lo para nós? Equilibrando o ego (centro da consciência) e expandido o Self (centro da totalidade, que é o nosso inconsciente). Um ego não adoecido (que não nos faz egoístas) percebe o seu papel como participante da vida e da necessidade da presença dos outros e de Deus no ser humano [5]. Colabora na criação de uma atitude empática e compassiva para com os outros. O processo de reencarnação tem em linha de conta as metas a que o espírito a reencarnar se propõe alcançar visando a sua evolução. Esta cumpre-se por etapas de desenvolvimento ético-moral, com reflexos na sensibilidade humana e na evolução espiritual, acompanhadas de avanço intelectual nas suas dimensões racional, emocional e espiritual. O quadro sociocultural em que se reencarna corresponde às etapas propostas, tendo estas etapas respaldo na moldura humana dada pelos traços de personalidade. Em síntese, os traços de personalidade vão ser o instrumento de interação com a envolvente para que ajudem à transformação íntima do indivíduo. Vão permitir reagir à adversidade e à abundância (material e espiritual) no decurso das vivências que decorrem do livre arbítrio e da lei de causa e efeito. Compreendendo-se que a personalidade humana não se restringe à realidade espaço-tempo terrena e do momento presente, os investigadores podem abrir novos e desafiantes campos de intervenção. A ascensão desta consciência, nomeadamente a título individual, pode permitir novas abordagens às temáticas da solidariedade, da inclusão, da aceitação da diferença e do valor da diversidade. Um exemplo deste contexto de interações em análise é o indivíduo ciumento. Este denota profundas manifestações egoticas (sintomas). Se consciente disso e tentar a modificação desse sintoma sem transformação estrutural do seu íntimo, o seu ego vai procurar outras formas para se expressar. Por exemplo, poderá fazê-lo a partir de processos de somatização, em que o corpo adoecido revela as necessidades da psique. Esta mudança estrutural não é equivalente a uma transformação moral, mas sim à mudança da essência da pessoa. E um passo nessa direção é aceitar-se, para que após se confrontar com o seu lado sombra, vença. Este conflito é importante, mas é de evitar a luta contra a sombra, ou a sua negação, tal como refere Joanna de Ângelis [5].
Lutar contra a sombra representa proceder a um desgaste inútil de energia. Quando é identificada, a energia retorna à psique, e, à medida que ela é integrada, mais vigor se apresenta no ser consciente”.
Se nos aceitarmos, saberemos aceitar os outros. E ao fazê-lo saberemos conviver, compreender, ser indulgentes, misericordiosos e perdoar [idem]. E isto é saber amar. É o amor o verdadeiro agente de mudança, o maestro que marca o compasso e o tempo na rede social e espiritual a que pertencemos.  

Referências

[1] SAMPSON, E.E. (1978). Psychology as an American ideal. [2] HASTINGS, H. (2007). ROY G. BIV and the OCEAN – A Heuristic Metaphor for Understanding the Role of the Five-Factor Model in Personality Research. [3] LAWRENCE, F. (2009). A Cybernetic Model of Global Personality Traits. [4] ROBERT, S. (1999). Social/Personality Psychology in Context. [5] FRANCO, Divaldo, pelo Espírito Joanna de Ângelis, Refletindo a Alma: A Psicologia Espírita de Joanna de Ângelis, LEAL, 4ª edição, 2016.
Título: Refletindo a Alma, a Psicologia de Joanna de Ângelis
[6] Recuperado de https://pt.wikipedia.org/wiki/Gl%C3%A2ndula_pineal.