Conhecimento material e espiritual

 
  • “(…) se os fatos [descritos na Bíblia] contradizem as palavras que lhe são atribuídas, o que se deve logicamente concluir é que Ele [Deus] não as pronunciou, ou que tais palavras foram entendidas em sentido oposto ao que lhes é próprio” 

(Allan Kardec, “A Génese”)

O consagrado espírita brasileiro Divaldo Pereira Franco no 8º Congresso Espírita Mundial (Lisboa, 2016) diz que urge uma ciência mais religiosa e uma religião mais científica. Em síntese, se a natureza não se organiza por disciplinas e a vida do Homem se perfaz num corpo pelo espírito, então a abordagem tem de ser transdisciplinar e incluir a reflexão sobre a nossa religação natural a Deus. Neste mesmo âmbito, Luís Portela [1], ex-administrador da multinacional portuguesa da área do medicamento, BIAL, numa entrevista de 2015, refere que aquilo que hoje pode parecer inacessível e por isso apelidado de disparate, tal como a realidade espiritual, pode ser amanhã observado e considerado verdade. Basta para isso que haja método e equipamento adequado. Luís Portela compara o desconhecimento dos micróbios no tempo anterior à descoberta de Pasteur e o que se veio a saber depois.
Pasteur teorizava em torno da existência dos micróbios. Chamaram-lhe tolinho até o microscópio demonstrar que aquele mundo existia. Aqui é o mesmo – resta saber qual o equipamento, material ou não, que pode trazer à luz o que existe. A ciência deve investigar o que lhe compete.” [2]
A questão a colocar é: E o que compete, ou não, à ciência investigar? De facto, o estudo sobre as evidências da criação de Deus e das Leis morais que regem a existência do Espírito não é pertença das cátedras religiosas, nem deve ser contraditado pelos que fazem ciência. Se é de conhecimento que se trata, tanto o trabalho de laboratório, como o realizado a partir da abordagem espiritual tem de convergir nos pontos comuns. Estes não podem ser ignorados por uma questão de preconceito. Caberá aos cientistas o estudo das consequências científicas da realidade espiritual. Caberá a filósofos, espíritas e religiosos a reflexão sobre a reencarnação e implicação das leis morais no encadeamento da vida. Caberá a todos o estudo do impacto da mediunidade no bem-estar, no tratamento complementar da saúde e no progresso humano. Tudo se resume ao “Amai-vos e instruí-vos”, pelo que a clausura de uns em relação a outros pouco contribuirá para esclarecer sobre um assunto, já de si, complexo e interdisciplinar. São inúmeros os investigadores que fazem ciência compreendendo que a realidade não pode ser explicada unicamente a partir de meios de medição exata e puramente quantitativos. Porém, o método experimental (método científico) pode ser usado como procedimento adequado para comprovar pelo menos partes da realidade espiritual que nos assiste. O trabalho desenvolvido sobre a codificação Espírita é um destes exemplos. Este trabalho foi realizado nos finais do século XIX por Allan Kardec, pseudónimo assumido pelo conhecido pedagogo francês Hippolyte Léon Denizard Rivail [3]. Muitos outros trabalhos de cariz científico foram sendo realizados neste domínio. Um destes exemplos é o de Ian Stevenson, professor e antigo diretor do departamento de psiquiatria da Universidade da Virgínia. Este investigador estudou relatos de vivências passadas de mais de 2.500 crianças. Os resultados revelaram evidências que confirmam, nomeadamente, que as cicatrizes de nascença em algumas das crianças observadas eram semelhantes às tida por pessoas que viveram em tempos anteriores [4]. O conhecimento não tem fronteiras disciplinares e não pode ficar fechado às realidades institucionais. Se há espíritos é porque há uma causa para a sua existência. Se há pessoas que com eles se comunicam é porque os espíritos se localizam algures a partir de onde se comunicam. E se a sua realidade se manifesta e intervém na vida quotidiana de cada um, é porque estamos imersos nesta realidade interatuante. Embora tenhamos o livre-arbítrio para decidir se aceitamos sugestões ao nosso pensamento, somos permeáveis à sugestão de pensamentos, pois de ordinário são eles [os Espíritos] quem nos comanda (O Livros dos Espíritos, Allan Kardec). Assim, importa compreender o sistema de vida em que estamos inseridos, o qual funciona para lá da realidade material. Deseja-se pois que “no século XXI a Ciência contribua para o esclarecimento espiritual da Humanidade como no século XX contribuiu para o esclarecimento material” (p. 12), como referiu Luís Portela [5a] [5b]. Luís Portela, em entrevista à RTP2, em dezembro de 2014, refere que somos uma partícula de energia que reflete o todo, que é Deus, pelo que somos ou contemos na sua essência uma parte Dele e que evoluímos ao longo de um processo que se concretiza em vidas sucessivas. Este médico e empresário, agraciado por honras de estado e académicas, foi promotor da criação da Fundação Bial, que tem apoiado projetos de investigação científica em áreas como a Psicofisiologia e Parapsicologia [6]. O trabalho de Portela é um importante exemplo da relação entre a convicção espiritualista e a ciência em favor da sociedade. E se por um lado há cientistas incapazes de ligarem ambas as realidades: material e espiritual, enquanto partes do todo, há igualmente religiosos, quiçá presos a dogmas, que não veem na ciência o instrumento de Deus para resgatar o Homem da ignorância. O atavismo está então no ser humano, que é ser em evolução, e não nos instrumentos: ciência (método científico) e religião (se visto como meio de compreensão e reflexão sobre a nossa religação natural a Deus –, isto, em vez de instituição terrena que se dedica à análise teológica de crenças e dogmas, em vez de factos aos quais carece de dados para serem compreendidos, em vez de “acreditados”). Este conhecimento remete para novas questões que desafiam novas áreas de estudo e investigação. São novas frentes para a ciência, para a filosofia, mas também para a forma como os religiosos podem tratar as suas convicções, independentemente do credo. Ao nível religioso, na obra A Génese, no capítulo XIV, Allan Kardec alerta-nos para as incorreções da bíblia, dogmas dos Homens e relevância do trabalho da ciência para o esclarecimento dos Homens [7]. Esclarece Kardec que:
se os factos [descritos na Bíblia] contradizem as palavras que lhe são atribuídas, o que se deve logicamente concluir é que Ele [Deus] não as pronunciou, ou que tais palavras foram entendidas em sentido oposto ao que lhes é próprio. Se, com semelhantes contradições, a religião sofre dano, a culpa não é da Ciência, que não pode fazer que o que é deixe de ser; mas, dos homens, por haverem, prematuramente, estabelecido dogmas absolutos, de cujo prevalecimento hão feito questão de vida ou de morte, sobre hipóteses susceptíveis de serem desmentidas pela experiência.”
Porém, acrescenta Kardec:
a Bíblia, evidentemente, encerra factos que a razão, desenvolvida pela Ciência, não poderia hoje aceitar e outros que parecem estranhos e derivam de costumes que já não são os nossos. Mas, a par disso, haveria parcialidade em se não reconhecer que ela guarda grandes e belas coisas. A alegoria ocupa ali considerável espaço, ocultando sob o seu véu sublimes verdades, que se patenteiam, desde que se desça ao âmago do pensamento, pois que logo desaparece o absurdo.” [idem, cap. IV, nº6].
E aquele tem sido, também, o trabalho de muitas casas espíritas que procuram esclarecer e ajudar quem busca solução para enfermidades de causa espiritual, nomeadamente depressão, obsessão, angústia, mediunidade não educada, entre outras. Um trabalho que visa ainda o consolo dos espíritos que ali se manifestam por sofrimento e/ou desconhecimento do seu estado – vivos, enquanto Espíritos, mas libertos do seu corpo, e mantendo a mesma individualidade, tendências e ideias. A par do consolo há a evidência da comunicabilidade dos espíritos e a ação do magnetismo em prol da saúde humana. Esta última em convergência com a ciência médica promovendo a saúde e o bem-estar – a título de exemplo, ver palestra [8]. Esta é uma realidade bem presente, por exemplo, no trabalho da UNIESPÍRITO – Universidade Internacional de Ciência do Espírito, promovido pelo médico e investigador espírita Sérgio Felipe de Oliveira [9]. Um trabalho que foi estendido a Portugal pela colaboração da ASCEV – Associação Social Cultural Espiritualista – Viseu.  

Referências

[1] Luís Portela, recuperado de http://sigarra.up.pt/up/pt/web_base.gera_pagina?P_pagina=1001825. [2] Luís Portela, entrevista de 11 fevereiro de 2015. Recuperado de http://www.noticiasmagazine.pt/2015/luis-portela/. [3] Recuperado dehttps://pt.wikipedia.org/wiki/Allan_Kardec. [4] Luís Portela, entrevista de 11 fevereiro de 2015. Recuperado de: http://www.noticiasmagazine.pt/2015/luis-portela/. [5] Entrevista, Revista Visão, 30 de março 2017. [6] Bolsas de Investigação da Fundação Bial, recuperado dehttp://www.embassyportugal.se/index.php?option=com_content&view=article&id=407%3Abolsas-de-investigacao-cientifica20142015-fundacao-bial&catid=41%3Ageral&Itemid=77&lang=pt. [7] KARDEC, Allan, A Génese, Hellil, 2018.
Título: A Génese
[8] Palestra ASCEV, 2017, Aspectos científicos dos ensinamentos de Jesus, Sérgio Felipe de Oliveira, recuperado de https://www.youtube.com/watch?time_continue=14&v=jHnqMqYk9s0. [9] Recuperado de https://www.uniespirito.com.br.