Ciência e espiritualidade

 

“A ciência só pode determinar o que é, não o que deve ser, e fora de seu domínio permanece a necessidade de juízos de valor de todos os tipos”

(Albert Einstein)

As obras de Sócrates, Platão e Aristóteles serviram de base para toda a Filosofia na Idade Média, Renascentista, Idade Moderna e Contemporânea. Sócrates e Platão foram percursores das ideias cristãs e do espiritismo antevendo a sua importância para a evolução humana. Sócrates (469-399 a.C.) tinha o objetivo de fazer os seus concidadãos alcançarem o pensamento racional visando-se a verdade interior pelo “Conhece-te a ti mesmo.” E Platão (428-347 a. C.), um dos três discípulos de Sócrates que trouxe a sua obra até nós, posicionou a essência do homem na alma. Alegava Platão que a alma era prisioneira do corpo, a alma que elevava o ser humano do mundo sensível até ao mundo das ideias, onde perdurava o bem. Aristóteles (384-322 a.C.), aluno de Platão, concordava com a opinião do seu mestre tendo acrescentado que a função do homem não poderia ser (apenas) a vida, senão esta seria comum à das plantas. E também não poderia ser somente a perceção, pois senão seria comum a vida dos animais. A função do homem teria de estar associada a uma atividade do elemento racional, a da alma, que “segue ou implica um princípio racional”. E daqui a sua conhecida afirmação: “o homem é um animal racional”. Aristóteles afirmava ainda que a alma era a enteléquia (“auto completude”) do corpo. A vida humana visa a autorrealização, pelo que a matéria e a forma são pares separáveis apenas por meio da abstração. E para distinguir a alma intelectiva (a do Homem) da alma de outros organismos subdividiu-a em três conceitos: alma vegetativa (comum a todos os seres vivos); alma sensitiva (pertencente também aos animais); alma racional (exclusiva do Homem). Esta visão unificadora viria a ser aplicada às principais disciplinas da época: biologia, física, metafísica, ética e política. Porém, a noção de universo orgânico, vivo e espiritual introduzido pela filosofia e ciência de Aristóteles viria a ser fortemente abalada. Primeiro, pela forma como os religiosos naquele tempo se apossaram do conhecimento. Fizeram-no pelo poder, dogma e misticismo. E depois, pela designada Revolução Científica (séc. XVI e XVII), iniciada pelas descobertas de Copérnico, Galileu, Descartes, Bacon, Newton, entre outros. Neste âmbito, com o objetivo de focar a ciência no estudo dos fenómenos mensuráveis e quantificáveis Galileu Galilei impulsionaria a exclusão dos conceitos qualitativos. René Descartes criaria o método do pensamento analítico. E Isaac Newton desenvolveria a designada mecânica newtoniana, a qual enfatizaria a visão do mundo como uma máquina perfeita e orientada por leis matemáticas. E partir daquele conjunto de abordagens desenvolve-se a base do pensamento científico. Este irá impor a análise da realidade por partes. No entanto, ainda absolutamente necessário fazerem-no para destrinçar o conhecimento exato daquele que era imposto pelos religiosos da época, negligenciou-se o facto de que o todo não poderia ser visto como um somatório de partes, pois “o todo é mais do que a soma de suas partes” [1]. É, afinal, tal como sublinhado pelos postulados da física quântica, que referem que “não se pode decompor o mundo em unidades elementares que existem de maneira independente”, ou seja, as partículas subatómicas isoladamente não têm significado, mas têm-no se entendidas como interconexões. Posteriormente também Einstein põe em causa a visão da realidade por partes, que é a base dos princípios da mecânica newtoniana, referindo que “os campos eletromagnéticos são entidades físicas interdependentes que podem viajar através do espaço vazio e não podem ser explicados mecanicamente” [2, p.65]. Ainda hoje há ausência de conciliação entre a física newtoniana, incluída na física clássica (que descreve o mundo à nossa escala) e a física relativista de Einstein (incluída na física moderna, séc. XX, e que estuda o mundo subatómico das partículas). Estes dois universos ainda não foram compreendidos o suficiente para se poderem conciliar. O que faltará? Se calhar o referencial espiritual. É tal como o ser humano que sem a sua realidade espiritual deixa de o ser. E foi sobre isto que os antigos filósofos intuíram. Foi sobre isto que Jesus falou nos seus ensinamentos e que posteriormente o Espiritismo cientificou. É isto que está em falta na nossa educação humana. Voltando à história… Voltando à história… A perspetiva contrária à predominância do pensamento mecanicista, introduzido pela revolução científica, emerge nos finais do séc. XVIII a partir da irreverência do poeta inglês William Blake (1757-1827). Blake foi o percursor do movimento romântico que defendia a visão de um todo interligado. Esta visão teria continuidade com o escritor e cientista alemão Johann Goethe (1749 – 1832), que entendia a “natureza” como uma “ordem móvel” em que a “forma” é um padrão de relações dentro de um todo organizado. Na mesma época, o filósofo Immanuel Kant (1724 – 1804) emprega de forma pioneira a terminologia da “auto-organização”. Esta definia assim a natureza dos organismos vivos:
Devemos pensar em cada parte como um órgão que produz as outras partes (de modo que cada uma, reciprocamente, produz a outra). (…) Devido a isso, [o organismo] será tanto um ser organizado como auto-organizador.” [3]
São estes os novos conceitos que a partir de finais do séc. XIX viriam a forjar as noções do pensamento sistémico [4]. Este não refuta a racionalidade científica, mas entende que as artes e as dimensões espirituais também devem incluir a equação do desenvolvimento humano. Marx Weber (1864-1920), intelectual alemão, jurista, economista e considerado um dos fundadores da Sociologia foi igualmente crítico para com a ciência positivista. Era crítico com os indivíduos da ciência incapazes de ir para lá de uma visão eminentemente materialista. A este propósito, numa conferência em 1918 para uma audiência de jovens estudantes, Weber disserta sobre o significado e o valor da ciência para concluir sobre a «desilusão». Na sua exposição reflete sobre as questões de índole pessoal, bem como sobre outras mais genéricas, nomeadamente sobre a vida, afirmando que a ciência era responsável por um processo de profunda racionalização intelectual, que designaria por «desilusão». E de facto, ainda que a ciência signifique progresso humano, isso não é necessariamente sinónimo de uma vida cheia de significado existencial, pois a ciência apenas nos ensina a dominar a vida «mediante cálculos». E ainda que esta reflexão possa deixar perplexos os indivíduos que encaram a ciência como a forma mais exata de explicar a realidade, ela alerta-nos para o estado excessivamente “positivista” (no sentido de incompleto) com que esta lente (dos indivíduos da ciência) observa a vida. O investigador Pedroso Lima [5] refere neste contexto que o paradigma mecanicista “aplicado à ciência psicológica foi simultaneamente benéfico e maléfico. Foi extremamente bem-sucedida no desenvolvimento da física clássica e da tecnologia, mas com consequências adversas para a nossa civilização. Só recentemente a ciência ultrapassou esta fragmentação e regressou à ideia de unidade, expressa nas primeiras filosofias grega e oriental”. A ciência ajudou-nos a desvendar inúmeras leis da matéria e, agora, o Espiritismo surge a revelar o princípio espiritual que completa o entendimento da vida, tal como Jesus o tinha explicado – Jesus, o mais destacado psicólogo do ser humano, ele que explicou tudo sobre a vida do ser. Não o Cristo dos “milagres” e da crucificação pela ignorância humana. Não será essa a mensagem a reter, mas sim a dos proveitosos ensinamentos, nomeadamente sobre o propósito dos dias e da vida (do espírito no corpo); da comunicabilidade entre os mundos físico e espiritual, de onde nos chega a inspiração, a intuição; do sentido inteligente de viver por quem age com caridade, lealdade e indulgência. Importa refletir sobre as ações do Cristo que nos demonstrou a ação da mediunidade e que sobre isso disse que ele nada fazia que não fosse autorizado por Deus, Ele, o único Criador. Há inúmeros campos a explorar ao nível do saber a partir do que agora o Espiritismo vem cientificar e clarificar a partir do que Jesus veio explicar ao ser humano e que, de uma forma ou de outra, as religiões (os seus indivíduos) aproveitaram para transformar em poder e domínio. É chegada a hora de sabermos usar os ensinamentos da Boa Nova para dar um novo impulso às ciências sociais e humanas, à física e química, à compreensão da matéria na sua interação com o fluido universal e da sua ação sobre a saúde humana, e demais seres vivos. Para isto, temos de despertar da letargia em que ainda nos vamos encontrando sob o manto do orgulho, do egoísmo e da vaidade. Notar que a ciência é uma revelação, porque revela os mistérios da natureza – tal como a Astronomia revelou o mundo cosmológico, a Geologia fez sobre a formação da Terra, etc. E o mesmo sucede com o Espiritismo enquanto revelação, pois revela a relação entre o mundo corpóreo e não corpóreo, em que o objeto de estudo são as leis do princípio espiritual (“A Génese”, Allan Kardec) [6]. A referida revelação está devidamente sistematizada nas cinco obras da codificação Espírita de Allan Kardec (séc. XIX) [7]. Estas comprovam, de forma inequívoca, a realidade dual da vida: corpo e espírito, pela qual se justifica a incompatibilidade da separação do todo a partir do seu seccionamento em partes. A sua revelação científica assenta na observação e prova da existência do mundo dos Espíritos, e na comunicabilidade destes:
O espiritismo, fazendo-nos conhecer o mundo invisível que nos cerca e no meio do qual vivíamos sem o saber, as leis que o regem, suas relações com o mundo visível, a natureza e o estado dos seres que o habitam e, por conseguinte, o destino do homem depois da morte, constitui verdadeira revelação, na acepção científica da palavra.” (idem, Cap. I, nº 12).
E “se a questão do homem espiritual permaneceu, até aos dias atuais, em estado de teoria, é que faltavam os meios de observação directa, existentes para comprovar estado do mundo material, conservando-se, portanto, aberto o campo às concepções do espírito humano. Enquanto o homem não conheceu as leis que regem a matéria e não pôde aplicar o método experimental, andou a errar de sistema em sistema, no tocante ao mecanismo do Universo e à formação da Terra. O que se deu na ordem física, deu-se também na ordem moral. Para fixar as ideias, faltou o elemento essencial: o conhecimento das leis a que se acha sujeito o princípio espiritual. Estava reservado à nossa época esse conhecimento, como o esteve aos dois últimos séculos o das leis da matéria [referindo-se aos séc. XVII e XVIII].” (idem, cap. IV, nº 15). Mais, a revelação espírita tem um duplo carácter, pois tanto é científica como divina. É científica porque se baseia em factos, pelo que não é resultado de mera especulação intelectual. E é divina, porque os pontos fundamentais da sua doutrina proveem do ensino dos Espíritos, com a perspetiva de esclarecerem o ser humano sobre as coisas que ignoravam e que não poderiam aprender por si mesmo. A origem dos Espíritos vem de Deus, sendo que aqueles que se comunicam do lado de lá da vida, da vida não material, tornam explícito o carácter divino da revelação espírita. Assim, toda a estruturação da ciência espírita, patente na obra de Kardec, é feita a partir da observação do fenómeno mediúnico e consequente discussão com os espíritos, produtores do fenómeno, sobre os mais diversos temas.
É, pois, resultado da observação, numa palavra, uma ciência; a ciência das relações entre os mundos visível e invisível; ciência ainda imperfeita, mas que diariamente se completa por novos estudos e que, tende a certeza, tomará posição ao lado das ciências positivas. Digo positivas, porque toda ciência que repousa sobre fatos é uma ciência positiva, e não puramente especulativa” [8].
Kardec refere ainda que:
o estudo do princípio espiritual, compreendido na Metafísica, foi puramente especulativo e teórico. No Espiritismo, é inteiramente experimental. Com o auxílio da faculdade mediúnica, mais desenvolvida presentemente e, sobretudo, generalizada e mais bem estudada, o homem se achou de posse de um novo instrumento de observação. A mediunidade foi, para o mundo espiritual, o que o telescópio foi para o mundo astral e o microscópio para o dos infinitamente pequenos.” [idem, Cap. IV, nº 16].
Neste sentido, uma ciência não pode negligenciar a outra por uma questão de deficiência de método. O método científico consiste em juntar evidências empíricas verificáveis e baseadas na observação sistemática e controlada aplicando processos lógicos. O método proposto pelo Espiritismo baseia-se na mediunidade. No entanto, esta abordagem não encontra respaldo quando o objeto de estudo é a própria inteligência (o espírito), pois ao contrário da matéria, que é inerte, o espírito tem vontade própria, pelo que é ele que determina se se quer manifestar, ou não. Em suma, a mudança de abordagem está na heurística. O Espiritismo é o método para lidar com a realidade espiritual tal como o científico o é para a material. Mas é ainda “uma poderosa síntese das leis físicas e morais, um meio de regeneração e adiantamento”, tal como Léon Denis refere no seu livro “Depois da morte”, 2014 (28ª edição, FEB) [9]. É ainda “a filosofia da alma liberta das formas, ritos, símbolos ou dogmas. É a consagração da mediunidade positiva e o momento antropológico terrestre em que o homem poderá alargar a sua compreensão a respeito de Deus.” [10] Um exemplo disto está na prova da reencarnação, tal como se pode encontrar no trabalho de Ian Stevenson, da Divisão de Estudos da Percepção, da Universidade de Virgínia, EUA, que em 2002 investigou inúmeros casos de crianças que relataram memórias de vidas anteriores e que justificam a existência de vidas passadas. Esta é, afinal, uma abordagem distinta, pela porta das ciências, para evidenciar o que já tinha sido analisado por Kardec a partir do que os Espíritos explicaram. O livro “Como Sentimos – O que a neurociência nos pode – ou não – dizer sobre as nossas emoções”, do neurocientista Giovanni Franzzetto [11] aborda o trabalho de Stevenson. Franzzetto procurou responder a questões sobre o que somos e como sentimos usando como instrumento as neurociências. O investigador conclui que pela ciência, nomeadamente pelo estudo das neurociências, nunca poderemos ver o todo, quando muito vemos uma das suas partes, a qual medimos e compreendemos. Nas suas palavras, “ainda que a neurociência explique as emoções por via de imagens e medições, prevendo causas e resultados, como compreendemos as nossas emoções dependerá sempre mais do que da ciência tout court.” De facto, cada vez mais investigadores galgam terreno à lente da ciência para poderem tratar o todo – que vai para lá da matéria. Afinal, se a realidade se explica pela sua dimensão material e espiritual, os instrumentos que a estuda terão de ser convergentes e não divergentes. Esses instrumentos terão de se complementar na caracterização do ser humano e do que este sente, tal como refere Franzzetto: “é possível ser-se, ao mesmo tempo, científico e lírico quando tentamos compreender-nos a nós mesmo e como nos sentimos.” Afinal, não nos podemos dissociar da nossa dimensão física, nem ignorar a identidade espiritual, ambas estão naturalmente religadas a um todo que lhes deu origem, a Inteligência Primeira, Deus, para o qual evoluímos. As mudanças de entendimento são lentas e difíceis de concretizar. Desde os filósofos gregos da antiguidade até aos nossos dias foram muitos os que batalharam contra a ignorância humana. A mesma que seria usada para matar Jesus e que já tinha condenado Sócrates ao mesmo fim. Ambos introduziram ideias diferentes às que serviam o poder vigente. Ambos foram percursores da visão holística que explica a existência da vida para lá do corpo, a vida espiritual, procurando justificá-la pelo apelo à razão. São as lutas entre a ignorância e a iluminação, entre as realidades de apego ao efémero, tal como o poder ou o status, e aquelas de cariz eterno, tal como o conhecimento ou a capacidade de reflexão. O ser humano tem feito o seu percurso desde que recebeu o primeiro convite à racionalidade. Começou por temer Deus, depois pela palavra de Jesus foi convidado a reconhecer o seu equívoco para então conhecer a Sua infinita bondade. Depois a ciência evidenciou-lhe o mundo material e o Espiritismo o mundo espiritual. Segue-se o momento da unificação destes universos de análise, tal como acontecerá com os diferentes campos de estudo da física que se distinguem pelo referencial. Afinal a realidade é una. Façamos, entretanto, a nossa parte, para que mais possam alcançar a iluminação do saber.  

Referências

[1] Capra, Fritjof, A Visão Sistémica da Vida. Cultrix, Brasil, 2014. [2] Capra, Fritjof, O Ponto de Mutação. Cultrix, Brasil, 1982. [3] CAPRA, Fritjof, A Teia da Vida. Editora Pensamento-Cultrix, São Paulo, 1997. [4] Recuperado dehttp://pt.wikipedia.org/wiki/Pensamento_sist%C3%AAmico. [5] LIMA, M. P., NEO-PI-R Contextos teóricos e Psicométricos: ‘Ocean’ ou ‘Iceberg’?, tese de doutoramento, Coimbra, 1997. [6] KARDEC, Allan, A Génese, Hellil, 2018.
Título: A Génese
[7] Recuperado dehttps://pt.wikipedia.org/wiki/Allan_Kardec. [8] Kardec, Allan, Revista Espírita. Novembro 1864, São Paulo: Edicel, [s.d.], p.323. [9] DENIS, Léon, Depois da morte, FEB, 28ª edição, 2014.
Título: Depois da morte
[10] LARA, Vinícios, pelo Espírito Ivon, Roteiros Mediúnicos, p. 18, 1ª ed, Pierre-Paul Didier, Brasil, 2017. [11] FRANZZETO, Giovanni, Como Sentimos – O que a neurociência nos pode – ou não – dizer sobre as nossas emoções, Bertrand Editora, 2014.