Sorria aos Jovens da Caravana Francisco de Assis

 

“Colhe as rosas do caminho no espinheiro dos testemunhos… Entesoura as moedas invisíveis do amor no templo do coração!… Retempera o ânimo varonil, em contacto com o rocio divino da gratidão e da bondade!… Entretanto, não te detenhas. Caminha!… É necessário ascender”

(Francisco de Assis, pela mediunidade de Chico Xavier, 17 de agosto de 1951)

É o amor que dinamiza a iniciativa de recolha de alimentos que há vários anos é realizada por um grupo de voluntários de um Centro Espírita da região centro do país. Estas recolhas contribuem para fazer cabazes de alimentos a distribuir por mais de meia centena de famílias da região. E tal como esta, há outras iniciativas, singulares ou coletivas, nas mais diversas cidades deste país revestindo-se com o mesmo cariz amoroso de Francisco de Assis.

Não, não se pretende passar a ideia que é na pobreza que a vida se torna digna, mas sim, que é compreendendo a dor do outro e solidarizando-nos por quem a vive, que se enriquece. Enriquecer é uma oportunidade para novas responsabilidades. O exemplo de Francisco de Assis deve-nos inspirar a promover este tipo de laços, de amor, entre as diferenças.

À iniciativa de recolha de alimentos não podemos chamar de Caravana “Robin dos Bosques”, pois não tem o intuito de receber dos ricos o que se vai dar aos pobres. Ela toca a todos. Sim, a caridade, seja ela material, moral ou emocional visa dar a quem precisa de receber. Isto mesmo nos foi ensinado por quem tomamos por modelo e Guia, aquele que veio explicar a Verdade da vida: Jesus. E porque erramos na medida que aprendemos, vivemos consequências de erros cometidos contra nós próprios e contra outros. Consequências que decorrem da Lei de Causa e Efeito, que se aplica no cenário de provas e expiações do atual contexto evolutivo da Terra.

Assim, cada um vive a condição que melhor lhe serve com vista à sua progressão moral, implicando o desenvolvimento do ser nas suas mais diversas facetas. Por causa disto nascemos em diferentes condições de carência, ou abundância, de serviço para consigo e para com outros. Tudo visa ajudar o indivíduo a vivenciar a aprendizagem que ajude a moldar o seu comportamento, pelo que face às dificuldades, ou aparentes facilidades, ninguém vive em castigo ou vantagem, mas sim no enquadramento que semeou. E é por isto que a caridade mais difícil de exercer não é a material, mas sim a que nos põe em confronto com a razão. Quando usamos da empatia para ir ao encontro da situação do outro, quando não julgamos e agimos estamos a compreender o que somos face à necessidade do outro. Somos um instrumento de bem. É importante não fazer o mal, fazer o bem, e nunca deixar de fazer quando está ao nosso alcance. A caridade, no seu sentido mais abrangente, significa “benevolência para com todos, indulgência para com as imperfeições dos outros e perdão das ofensas” (O Livro dos Espíritos, Allan Kardec, questão 886) [1].

O auxílio da Caravana dirige-se então aos que se encontram na situação de aceitar ajuda, aos que vivem a “oportunidade” de se humildarem perante a dificuldade. Eventualmente, humildarem alguma dimensão hiperbólica do seu carácter, aquela que lhes terá precipitado o erro moral pelo qual (pelos quais) se vive agora aquele resgate – o contexto da sua vida atual.

As fontes da generosidade (os dadores) são por vezes tão carentes de ajuda quanto os destinatários dos bens recolhidos. Estas pessoas partilham o pouco que têm, seja massa, arroz, azeite, leite, etc. Porém, desengane-se quem pensa que a carência é apenas de bens materiais, pois a abundância material não significa ausência de necessidade, nomeadamente a nível espiritual, emocional, afetivo.

A experiência porta a porta também mostra que a generosidade não está na disponibilidade material, mas sim de coração. Os mais humildes são os mais solidários. E embora fosse de esperar um cuidado mais avaro na casa do desvalido, dada a sua condição de maior necessidade, ocorre o inverso, pois são estes os mais solidários, se calhar por que estão mais próximos de compreender o sentido da queda e das dores do outro, pois reconhecem-nas em si, no seu dia a dia.

Constata-se ainda que os mais desprovidos materialmente têm um maior foco no essencial, o que exclui o ócio, o desperdício e alguns vícios humanos que conduzem o indivíduo à queda moral, ao egoísmo ao inflar do orgulho, da vaidade, da avareza. Assim sendo, será a pobreza uma condição boa para melhor evoluirmos e aprendermos a caridade? Naturalmente que não, contudo, a abundância não vigiada pode gerar egoísmo, negligência para com o próximo.

A miopia de sentimentos de amor pode alimentar o fechamento do ser sobre si mesmo conduzindo-o a consequências gravosas. E estas não são, de todo, obliteráveis à luz da Lei de Causa e Efeito. A responsabilidade face ao outro é algo para todos e dela nunca deveremos fugir. A ajuda que se nega hoje pode ser aquela que nos poderá faltar amanhã.

Deus não dá, como expiação, nenhuma dor que seja escusada. Tudo contribui para a evolução do espírito, razão pela qual a vida na abundância pode encerrar provas mais difíceis do que aquelas que se vivem na privação, na humildade. A abundância, se mal gerida, se vivida sem caridade, carimba a privação para uma vida futura, eventualmente já sentida ao nível dos sentimentos e da harmonia íntima na vida presente. Isto não sucede por castigo, mas sim para que a dor sentida desenvolva no espírito sentimentos que lhe instruam o valor da caridade. O objetivo é sempre o mesmo: evoluir e vencer as paixões terrenas, pelo que a riqueza e a pobreza devem ser encaradas com o máximo de respeito. O essencial está no coração.

A carência material é um instrumento para humildar o espírito. A luz produzida pela abundância material, quando não usada como luminária para prover a quantos possam dela beneficiar, pode tornar-se na luz que encandeia o materialista, conduzindo o indivíduo à cegueira. Cegueira sobre a responsabilidade face à abundância. Uma abundância que é dada por Deus, e que de igual forma a pode tirar com vista à correção moral. Neste sentido, cabe a cada um fazer um bom uso do atributo recebido, sendo a caridade, material ou moral, um dos reflexos da aprendizagem com a qual todos devemos estar comprometidos.

Por vezes o excesso material é distrativo e centrípeto, pois dá-nos a sensação de que a vida acontece para dentro de cada um de nós, para os nossos gozos, para o consolo individual. Assim, para que não se caia neste erro, deveremos encarar a vida de forma centrífuga, ou seja, a partir de cada um em direção aos outros. Ao agirmos assim recebemos mais, pois o amor em que estamos a participar propaga-se de forma distributiva. Ele devolverá o bem entregue pelas consequências promovidas pela Lei de Causa e Efeito.

A caridade é explicada por Jesus como sendo a maior das virtudes, porque permite colocar em prática um mandamento fundamental: “amar o próximo como a si mesmo” [2]. A essência desse amor visa, acima de tudo, a regeneração do ser humano pela educação e pela conquista de si mesmo. Saber amar o próximo é fazer uso da inteligência, não é ser-se “bonzinho”, não é gostar dos outros porque é moralmente adequado. É compreender o sentido da vida e a rede de laços sociais (na Terra) e espirituais (no Todo), que une cada um a Deus: o Criador do Todo.

Somos fruto da mesma criação e votados ao mesmo destino: evoluir. Afinal, não há fronteiras, nem diferenças de raça ou de estatuto social. Não há diferenças de género (sexo) ou de estado entre vivo ou morto ao nível das responsabilidades face à vida e à caridade para com outros, pois somos seres espirituais (eternos) a viver experiências físicas, num corpo, por meio de diferentes reencarnações, vivenciadas no contexto das nossas necessidades evolutivas.

Posto isto, o que há são oportunidades mediadas por Deus e pelas nossas escolhas, a cada reencarnação, previamente ditadas pelo nosso livre arbítrio e no burilar de ligações espirituais entre dois planos (terreno e espiritual), as quais não se descontinuam pela reencarnação ou morte do corpo.

São contáveis as formas de realizarmos o mal. Estas são limitadas e bem conhecidas. O mal é igual para todos e em ambos os planos – terreno e espiritual. As consequências do mal, o sofrimento, é que são idênticas para todos e em todas as dimensões da vida e condições da evolução. Porém, as formas de praticar o bem são incontáveis. A sua infinidade deve motivar-nos a agir em nome desse bem diversificando as nossas ações com esse fim.

E se não temos de viver em escassez para se perceber a importância do bem, da caridade, da empatia e compaixão, também não é por sermos ricos que nos temos de tornar incapazes de ver esta realidade. Todos podemos ver e compreender o bem e o sentido de equipa que está na solidariedade. Os voluntários que participam na recolha de alimentos constatam-no permanentemente. O fosso a evitar é o egoísmo e o individualismo em que muitos de nós caímos. Afinal não há qualquer mal na criação de riqueza, nem vergonha na pobreza. Contudo, na prática do bem há um instrumento que todos podemos usar para expressar a atenção pelos que resgatam em dificuldade, independentemente da sua condição de partida.

Francisco de Assis, ao ter compreendido isto, sentindo-o, foi obreiro na caridade. Ele agiu, pois tinha compreendido, como poucos, que a expressão do amor se pode exercitar de inúmeras formas, particularmente em favor de quem não conhecemos.

Todos podemos marcar a diferença em favor de outros, seja pela doação de tempo, atenção, bens, etc., ou de forma mais estrutural, por exemplo, gerando emprego, fazendo voluntariado, etc. O amor, na sua expressão de caridade, é, afinal, um apelo ao sentido de responsabilidade de cada um.

Fica claro que agir com caridade, não é apenas dar aquilo que não precisamos, para descargo de consciência. E menos ainda é marcar pontos para os “outros” verem, ou guardar um “lugar no Céu”, que afinal não existe como tal. É, isso sim, agir com indulgência. Esta é a responsabilidade: dar com uma mão sem que a outra tenha que saber, tal como referia Jesus. Estes são princípios fundamentais sobre os quais deveremos meditar para melhor compreendermos a importância da caridade.

Esta é a responsabilidade que muitos querem vivenciar quando a Caravana vai de porta em porta com o intuito de estabelecer laços entre quem tem para dar e quem precisa de receber. Esta prática estabelece uma dinâmica que agita o sentido de humildade e de compreensão dos próprios voluntários, jovens e adultos, nomeadamente quando ouvem um “não”, ou uma “desculpa” por não se ter trocos. Há quem não compreenda que não é dinheiro que se recolhe, mas sim, e só, alimentos, na mesma medida que se partilha atenção com quem precisa.

Esta é ainda uma prática pelo bem na forma de criação de laços (invisíveis) de quem quer doar-se a quem tem esse bem para receber. O bem intermediado, por vezes, é o tempo do outro, a palavra de atenção, o sorriso carinhoso, entregues pelo grupo de voluntários(as) a quem é arrancado, ainda que por breves instantes, à clausura da sua solidão – seja esta a pessoa que dá ou recebe. É a pessoa que abre a porta.

Quando alguns destes “fazedores de pontes e laços” baterem à sua porta (mas não se equivoque sobre quem bate) sorria, dê, receba, ou partilhe, mas sorria, porque é no desenho do seu sorriso que está a construção do seu amor.

 

Referências

[1] KARDEC, Allan, O Livro dos Espíritos. 1ª ed. – Hellil : Associação Social Cultural Espiritualista, Viseu, 2017.

Título: O Livro dos Espíritos
[2] Kardecpedia.com. Recuperado de https://www.kardecpedia.com/roteiro-de-estudos/887/o-evangelho-segundo-oespiritismo/2064/capitulo-xi-amar-o-proximo-como-a-si-mesmo.