Equivocados – charlatões da mediunidade

 

“Reconhece-se a árvore pelos seus frutos; uma boa árvore não pode dar maus frutos, e uma árvore má, não pode dar bons frutos”. Julgam-se os Espíritos pela qualidade de suas obras, como a árvore pela qualidade de seus frutos.”

(O Evangelho Segundo o Espiritismo, capítulo XXI, nº 7)

Recordo uma conversa com uma amiga advogada do Porto sobre as suas visitas a um indivíduo que se dizia médium. Por ele falava o espírito de um padre italiano, muito divertido, relatava ela. Essa amiga vivia alguns problemas conjugais e tinha decisões pendentes sobre o seu percurso profissional. A minha amiga estava vulnerável e na busca de auxílio no sítio e da forma errada fez-se, sem saber, cliente de um charlatão da mediunidade. Um dia tomei conhecimento dos factos acima descritos. Pedi-lhe então que me relatasse o que vivenciava na casa daquele suposto médium. Primeiro, da reprodução do que o espírito (do referido padre) lhe ia dizendo ao longo das diversas sessões salientava-se a rudeza de linguagem e o abuso moral do espírito, ainda que camuflado pela graça da sua narrativa. Fazia-o, nomeadamente, pela forma como se referia ao marido da minha amiga. Segundo, o espírito estendia a sua prestação ao aconselhamento, que mais soava a manipulação. Terceiro, havia algum fascínio com o evento por parte da minha amiga, dado que o espírito lhe revelava coisas que só ela supostamente sabia. Acreditava que devia ser poderoso para poder saber aquelas coisas. Estes são relatos comuns entre aqueles que credulamente visitam as casas destes supostos médiuns vestidos de bem feitores. Médiuns do ultraje e benfeitores dos seus próprios interesses comerciais. Estes, ou mentem, ou abusam do fenómeno da mediunidade. Contribuem para pôr em contacto a ignorância de uns com a maldade de outros. Uns buscam respostas ou soluções que não se alcançam por aqueles expedientes. Outros, ao quererem manter os seus gozos juntos dos terrenos, apesar da sua existência unicamente espiritual, encontram nestes expedientes a forma de alimentar o seu ser destorcido. É assim que estes ditos médiuns do ultraje participam na desarmonização social, na sugestão que alimenta o equívoco e para a sementeira que, primeiro, lhes trará dissabores, segundo, em nada ajuda ou consola os problemas de quem os tem, terceiro, para nada de bom cooperam no âmbito da relação, natural, de comunicação entre os mundos espiritual e terreno. E os espíritos podem saber sobre a nossa vida? Sim! Primeiro, eles acompanham-nos por toda a parte. E quem são eles? São aqueles que encontram junto dos indivíduos pensamentos e comportamentos (morais) afins. Segundo, para os espíritos muitos dos nossos acontecimentos futuros não o são, para eles. Tudo está de acordo com o ponto de observação a partir do qual se analisam os acontecimentos. Pensemos, por analogia, na pessoa que se encontra no topo de uma montanha a observar outra que inicia um dado percurso na direção do indivíduo que o observa. Para quem está a fazer o caminho tudo o que vai acontecer é futuro. Por exemplo, o que está para lá de uma dada curva é futuro. Mas para quem observa e vê o percurso por inteiro sabe o que há depois da referida curva – aquilo faz parte do seu presente. O exercício de ver à distância do acontecimento é tal como os espíritos fazem para saber, mediante decisões tomadas, plasmadas no pensamento, e sem possibilidade de grande desvio, o que vai suceder. Para quem desconhece a realidade da interceção entre os planos espiritual e terreno, ouvir sobre coisas que para este é futuro é alvo de grande impressão e maravilhamento. Porém, nada contêm de maravilhoso, de exceção às leis naturais, ou inexplicáveis pelo conhecimento. Por conseguinte, quem o faz nada tem de poderoso. E é perante estas manifestações, de suposta adivinhação, que os crédulos se detêm e se vergam nas suas crenças. Nisto, e na maldade que por vezes procuram fazer a terceiros, quando recorrem a estas práticas, para si, poderosas. Práticas que, como tudo na vida, está sujeito à Lei de Causa e Efeito, embora o desconheçam, ou queiram desconhecer. Quem semeia ventos colhe tempestades. E mesmo que as motivações de quem recorre a estes sítios não sejam maldosas, tal como sucedia com a minha amiga, há que notar que Espíritos que se manifestam em sítios onde se comercializa a mediunidade não podem ter uma condição moral elevada. Espíritos elevados não perdem tempo com coisas mundanas e transacionando uma dádiva de Deus. Assim e após várias conversas, a minha amiga compreendeu as diferenças entre o que tinha estado a viver naquela situação e o que é, de facto, a mediunidade. Percebeu ainda a gravidade do que lhe estava a suceder e a absoluta necessidade de jamais recorrer a estes lugares, nomeadamente para resolver questões suas e solúveis pelo trabalho íntimo e de autoconhecimento. Nunca através de um estranho. Ninguém esclarecido e com bondade interfere na decisão de outros. No limite ajuda a pôr a realidade dos factos em perspetiva para que a pessoa decida com mais certeza. Neste aspeto o Espiritismo pode ajudar. Pode contribuir para que a pessoa se possa entender melhor consigo mesmo e na relação com os outros. O trabalho mediúnico é o de entrega ao outro. É sempre um trabalho voluntário, caritativo, de consolo, esclarecimento e ao encontro do que Jesus afirmou: “Dai, pois, a Deus o que é de Deus e a César o que é de César”. A comercialização de bens materiais tem a finalidade da vida terrena. Os atributos da realidade espiritual não são para ser comercializados, pois são dádivas de Deus ao ser humano e não conquistas suas na Terra. Nesse sentido, se alguém exercita a sua mediunidade para fins comerciais incorre em grande falta para com os preceitos da vida e propósito da sua própria reencarnação. Por outro lado, tal como explicado na obra de Kardec, o exercício da mediunidade deve ser feito com o auxílio do plano espiritual, desaconselhando-se severamente a sua prática fora da Casa Espírita. Assim, quem exercita a mediunidade evocando a presença de espíritos desencarnados põe em perigo o habitante da casa onde os atos são praticados, bem como aqueles que a esses locais recorre. Na verdade, dada a falta de proteção espiritual desses lugares, nunca se sabe quem é chamado e por quem se fazem acompanhar os espíritos evocados, nem mesmo se estes, depois, vão acompanhar, e de forma perniciosa, os infortunados visitantes. Um exemplo disto ocorreu no interior do país, em Portugal, onde havia um conhecido indivíduo que praticava a dita mediunidade em sua casa. Dizia-se protegido e que fazia os seus trabalhos para ajudar quem precisava. Cada um dava o que queria, dizia este, e assim fazia passar a ideia de que não cobrava pelos trabalhos que realizava – em suma, refugiava-se num eufemismo para escamotear a verdade. Resultado, ao fim de alguns anos de prática teve de recorrer a uma Casa Espírita para pedir socorro pela sua filha, pois tinha fortes tendências suicidas. E quem eram as entidades que foram gradativamente obsidiando a filha até que chegasse à ideação suicida? Provavelmente muitas das que foram sendo chamadas pela evocação dos trabalhos realizados pelo pai no lar da família. Um outro exemplo ocorreu numa Casa Espírita, num diálogo entre o doutrinador (que trabalha na sala de tratamento mediúnico) e o espírito que ali se manifestava, num dos médiuns. O espírito estava em grande sofrimento pelas perseguições que se dizia vítima. E quem eram os perseguidores? Eram as vítimas das más práticas mediúnicas (vulgo bruxaria). Todos estes, agora no outro lado da vida, perseguiam-se e procuravam a vingança face ao mal que lhes tinha sido causado.  E admitia o espírito queixoso que os seus atos visaram apenas o ganho de dinheiro, nunca a ajuda. Aliás, que nem sequer acreditava que “aquilo” funcionasse, tal como agora dizia. Estes dois casos testemunham as consequências da evocação espiritual de forma ultrajante. No que se refere às vítimas destes atos podemos questionar-nos sobre se todos nós estamos sujeitas às mesmas consequências face a maldade dirigida? E a resposta é não, pois, a cada um segundo as suas obras. E por que razão aceitam os espíritos evocados participar naquelas práticas? Aceitam porque, quando encanados, já se predisponham a praticar todo o tipo de males a soldo de outros. Após a morte (do seu corpo), são o mesmo ser, tanto a nível intelectual como moral. Mantêm a mesma índole. E face à oportunidade de agir novamente no que lhes dá gozo não hesitam, até serem capazes de mudar de conduta. E este é um dos aspetos da ação da doutrinação na sala de trabalho mediúnico na Casa Espírita. Por outro lado, as pessoas que participam nestes trabalhos irão sofrer os efeitos dos seus atos, pois todos estamos sujeitos às mesmas leis de Deus, nomeadamente à Lei de Causa e Efeito. O horror sentido e descrito pelo espírito na sala mediúnica é o exemplo disso mesmo. O Espiritismo vem esclarecer, não alimentar a dúvida, a discórdia ou a intriga. O Espiritismo baseia-se em factos, não os constrói, pelo que surge como compêndio de ciência sobre a mediunidade e de informação sobre as características pelas quais se reconhecem os bons Espíritos: características morais e jamais materiais. (Ver Livro dos Médiuns, cap. 24, e seguintes) [1]. Esclarece ainda sobre o que se revela no contexto das relações entre os mundos corpóreo e espiritual e suas leis. No livro “O Evangelho Segundo o Espiritismo”, de Allan Kardec, capítulo XXI, elucida-se sobre a forma como os espíritos intervêm no nosso quotidiano e desmascara-se a categoria de espíritos designada por falsos cristos. Estes são os espíritos “enganadores, hipócritas, orgulhosos e pseudo-sábios, que passaram da Terra para a erraticidade e se disfarçam com nomes veneráveis, para procurar, através da máscara que usam, tornar aceitáveis as suas ideias, frequentemente as mais bizarras e absurdas.” [2] No livro “No Invisível” de Léon Denis [3] são apresentados inúmeros trabalhos científicos desenvolvidos nos primórdios dos fenómenos espíritas, muito em voga em países como EUA, Inglaterra e França naquela época (séc. XIX e inícios do Séc. XX). São diversos os casos que relatam a forma como os espíritos começaram a manifestar-se sistematicamente. É um assunto sério, pelo que deve ser considerado com a devida ponderação. Entre estes conta-se um primeiro caso de comunicação mediúnica recebido com grande impacto social na sociedade de então:
A história do moderno Espiritualismo começou por um caso de natureza mal-assombrada. As manifestações da casa de Hydesville, assim visitada, em 1848, e as tribulações da família Fox, que nela residia, são bem conhecidas. Recordá-las-emos apenas em um breve resumo. Todas as noites, uma Inteligência invisível acusava estar presente por meio de ruídos violentos e contínuos, abrindo e fechando as portas, arrastando os móveis, arrebatando as roupas das camas. Mãos frias e rudes agarravam as Senhoritas Fox, e o soalho oscilava sob uma acção desconhecida. Mediante pancadas nas paredes – sendo cada letra do alfabeto designada por um número correspondente de pancadas –, essa Inteligência afirmava ter vivido na Terra. Soletrava seu nome, Carlos Rosna, indicava sua profissão de mascate e entrava em muitas particularidades acerca do seu fim trágico, particularidades ignoradas de todos, e cuja exactidão foi reconhecida pela descoberta de ossadas humanas na adega, precisamente no lugar indicado pelo Espírito como o do enterramento do seu cadáver, após o assassínio. Essas ossadas achavam-se misturadas com resíduos de carvão e cal, que demonstravam a evidente intenção de fazer desaparecer todo vestígio desse misterioso acontecimento. Afluíram os curiosos; a casa tornou-se insuficiente para conter a multidão, vinda de todas as partes. Ocasião houve em que se reuniram quinhentas pessoas para ouvirem os ruídos. Foi por essa manifestação, tão nova e tão estranha para aqueles que a testemunharam, numa humilde casa de uma pobre vila do Estado de Nova Iorque, em presença de pessoas da mais modesta condição, que o segredo da morte foi divulgado por um ser invisível, no silêncio da noite. Pela primeira vez, nos tempos modernos, um pouco de claridade penetrou por sob a porta que separa o mundo dos vivos do mundo dos desencarnados. Por sua natureza espontânea, inesperada, pelas comovedoras circunstâncias que a; rodeiam, essa manifestação escapa a todas as explicações e teorias que se tem procurado opor ao Espiritismo. A sugestão, do mesmo modo que a alucinação e o inconsciente, é impotente para explicá-la. A família Fox era de uma honorabilidade a toda prova, ligada à Igreja Episcopal Metodista, cujos ofícios frequentava com regularidade. Educados na mais estrita rotina religiosa, todos os seus membros ignoravam a possibilidade de tais fatos, a cujo respeito se achavam absolutamente desprevenidos (…).” (idem, p. 202-203)
 

Referências

[1] KARDEC, Allan, O Livro dos Médiuns. [2] KARDEC, Allan, O Evangelho Segundo o Espiritismo. Viseu, Publicações Hellil, 2014.
Título: O Evangelho Segundo o Espiritismo
[3] DENIS, L. (2011), No Invisível, 2ª Ed, FEB, do original de 1911.
Título: No Invisível