Glândula pineal

 

Os primeiros estudos sobre a glândula pineal datam de 300 anos antes de Cristo, à qual lhe era atribuída a função de sede da alma pelo filósofo francês René Descartes (1596-1650) [1]

 

René Descartes no seu trabalho “Paixões da Alma” (1650) refere que o corpo e a alma são duas substâncias diferentes que interagem na glândula pineal através do fluxo dos espíritos animais (expressão por si usada) e que o corpo é uma substância extensa e não-pensante, ao passo que a alma é uma substância não-estendida e pensante [2]. Descartes reduz assim os fenómenos biológicos a fenómenos físicos e químicos dispensando a alma do processo [3], e, embora desconheça que a alma é o condutor do corpo (o espírito quando encarnado), reconheça a sua existência e a função da glândula pineal.

Com Descartes estava-se no séc. XVII e emergia então a designada revolução científica, ela que no sentido de separar as ciências exatas do obscurantismo, acabaria por afastar a ideia de unidade substancial do homem. Com esta abordagem assumia-se que as coisas só poderiam ser apreendidas por meio de sensações ou do conhecimento intelectual. E se o objetivo era afastar da formulação do conhecimento o dogmatismo imposto pelo clero da época, a primazia da racionalidade e da lógica, consubstanciada no exacerbar do pragmatismo, acabaria por pôr em causa a realidade das coisas sensíveis e inteligíveis, que inclui a compreensão da vida espiritual (para lá dos dogmas religiosos). Factos que vão influenciar fortemente o desenvolvimento sociocultural e a forma de fazer ciência.

Esta proposta acaba assim por fechar a porta ao desenvolvimento do pensamento holístico, mais preparado para acolher a análise sobre o mundo das coisas imateriais. E é neste contexto que se passou a separar a realidade espiritual de tudo o que é matéria, o que se passou a assumir como tangível e pragmático, ignorando-se a racionalidade dos factos.

Desde então, o preconceito e a ignorância, a par do ceticismo e do orgulho humano foram cavando o fosso entre a verdade e o obscurantismo, e o pensamento cartesiano foi-se encastelando. E pela mão desta ciência que esconde Deus e de uma igreja que colocou Deus onde mais ninguém O encontra, as pessoas foram perdendo o sentido da sua individuação em favor da individualização, ou seja, o ego comanda o indivíduo e os seus desejos em favor do individualismo alimentado pelo egoísmo e foco no mundo das “coisas”.

Como resolver?

Primeiro, retirando o pensamento do obscurantismo. Depois, esclarecendo sobre o propósito dos dias comandado pelo sentido da empatia e compassividade pelos outros. Por fim, compreendendo a mediunidade, que é uma faculdade orgânica que explica a nossa relação com o mundo dos espíritos (que somos, mas encarnados). Afinal somos seres espirituais a viver experiências em corpos transitórios. E no cerne desta comunicação, a glândula pineal.

A glândula pineal, também denominada por epífise, situa-se perto do centro do cérebro entre os dois hemisférios e está associada a dois centros energéticos (também designados de centros de força ou centros vitais), um localizado na região central da fronte e o outro no campo encefálico (coronário). Esta é uma glândula endócrina, ligada ao sistema vascular e neurológico e que funciona como relógio do organismo e organizador do seu ritmo. Ela capta o campo magnético e transforma-o em fenómeno neurológico (neuro endócrino) estabelecendo a ligação entre as dimensões física e espiritual.

A medicina tem atribuído à pineal a função de equilíbrio de alguns ciclos vitais, especialmente os do sono e o da regulação dos esforços sexuais e reprodutivos. A doutrina Espírita atribui-lhe o comando das emoções e o acesso irrestrito a todo o sistema endócrino, atuando ainda na esfera sexual e sobre as forças do inconsciente. Por ela estabelecem-se as ligações entre o ser humano e os espíritos. Desta ligação resulta a expressão do afeto moral, do amor, mas também da interferência, como por exemplo a obsessão ou perturbação ao bem-estar do indivíduo (por decorrência da lei de causa e efeito). Pode dizer-se que a pineal funciona como um router de internet.

Infelizmente são escassos os trabalhos interdisciplinares que agregam o conhecimento espírita e o da ciência formal. Neste particular ganha relevo o trabalho do psiquiatra brasileiro Sérgio Felipe de Oliveira, que tem investigado a formação de cristais de apatita na pineal. Este trabalho tem impacto no estudo das relações entre saúde física e espiritual, com reflexos na mediunidade (sensibilidade humana) [4], bem como das síndromes psiquiátricas. Esta abordagem está em linha com as diretivas da OMS (Organização Mundial de Saúde), que a partir de 1998 passou a assinalar o bem-estar espiritual como uma das definições de saúde, isto a par das relativas aos aspetos físico, mental e social. E de facto, a obsessão espiritual é hoje considerada como uma doença da alma.

Sobre a correspondência entre glândula pineal e subconsciente, o Espírito André Luiz, no livro Missionários da Luz, psicografado por Francisco Cândido Xavier [6], refere:

(…) a glândula pineal conserva ascendência em todo o sistema endocrínico. Ligada à mente, através de princípios electromagnéticos do campo vital, que a ciência comum ainda não pode identificar, comanda as forças subconscientes sob a determinação directa da vontade. As redes nervosas constituem-lhe os fios telegráficos para ordens imediatas a todos os departamentos celulares, e sob sua direcção efectuam-se os suprimentos de energias psíquicas a todos os armazéns autónomos dos órgãos.” (p. 18-19).

Em síntese, a mediunidade acontece pelo funcionamento da pineal que capta o campo eletromagnético através do qual a espiritualidade envolvente interfere. A pineal, no que diz respeito à mediunidade, capta o campo eletromagnético, impregnado de informações, como se fosse um telemóvel. Mas tudo isso tem que ser interpretado em áreas cerebrais, como por exemplo, o córtex frontal. Um papagaio tem a pineal, mas não vai receber um espírito, porque ele não tem uma área no cérebro que lhe permita fazer um julgamento. A mediunidade está ligada a uma questão de senso-perceção [6].

A ciência progressivamente vai tomando conhecimento sobre as funções da pineal no contexto do corpo físico, mas ainda ignora a sua relação com a mediunidade. Ignora que não é no corpo, mas sim no Espírito que reside a individualidade do ser, que comanda o pensamento e a vontade. Ignora igualmente que corpo e a alma não são entidades divisíveis no que concerne à compreensão do que é o ser humano, pelo que somente a partir de uma abordagem integrada se poderá estudar a sede do comando da subconsciência e da transmissão do pensamento [7].

E para que isto ganhe escala é fundamental que o cartesianismo coerente com a necessidade de nos manter alerta contra o misticismo convirja em favor de um entendimento mais holístico do ser humano. Para isto é necessário que, mais cientistas compreendam as realidades de Deus colocando esse entendimento do lado da razão, mais religiosos assumam a ciência redefinido a sua compreensão da espiritualidade, e mais pessoas se percebam como coautores dos seus dias pondo a alma no centro da sua ação em vez do ego.

 

Referências

[1] Recuperado de http://www.infoescola.com/anatomia-humana/glandula-pineal/.

[2] DESCARTES, Meditações. Meditação sexta. Da existência das coisas materiais e da distinção real entre a alma e o corpo do homem, n. 24, p. 328-329.

[3] CRUZ, Luís, A alma do embrião humano. Tese de doutoramento, p. 115-116. Recuperado de http://www.providaanapolis.org.br/images/artigos/AlmaEmbr.pdf.

[4] OLIVEIRA, Felipe, Saúde e Espiritualidade, palestra pública na ASCEV, Viseu, janeiro de 2016. Recuperado de https://www.youtube.com/watch?v=gtQ27voQJL0&feature=em-subs_digest.

[5] XAVIER, Francisco Cândido, orientado pelo Espírito André Luiz, Missionários da Luz, FEB, 1945. Recuperado dehttp://files.comunidades.net/vidaaposamorte/MISSIONARIOS_DA_LUZ.pdf.

Título: Missionários da Luz
[6] OLIVEIRA, Felipe, entrevista. recuperado de https://www.ippb.org.br/textos/especiais/mythos-editora/pineal-a-uniao-do-corpo-e-da-alma]. [7] Recuperado de https://espirito.org.br/artigos/pensamento-como-instrumento-espirita/