Crer é entender

 

“Qualquer verdade passa por três estágios. Primeiro, é ridicularizado. Segundo, é violentamente combatida. Terceiro, é aceite como óbvia e evidente.”

(Arthur Schopenhauer, filósofo alemão, séc. XIX)

De Moisés até à Boa Nova de Jesus passaram cerca de 1300 anos. Nesse período vigorou a máxima do “olho por olho, dente por dente” em que se acreditava num Deus vingativo para com os culpados. A Boa Nova de Jesus introduziu uma noção totalmente oposta. Esta faz referência a um Deus clemente cujo Reino não é deste mundo. Ensina sobre a lei do amor referindo que cada um deve amar o próximo e fazer o bem àqueles que nos odeiem. Fala do perdão ao invés da vingança. Fala do crer, que é entender a Verdade. Fala, afinal de uma mensagem inclusiva em vez de se referir a um povo eleito. Alude ao provir dando esperança. Diz ainda que todos os seres humanos são iguais perante o Pai, e que este é um só, e que está nos Céus.

Esta foi a mensagem levada a um povo que já cria num Deus único e que era essencialmente monoteísta: os judeus. Todavia, este também era um povo dirigido por religiosos orgulhosos (judeus fariseus) e governado por déspotas esclavagistas (os romanos que ocupavam aqueles territórios). 1300 anos depois de Moisés, talvez fosse expectável que houvesse uma maior maturidade espiritual por parte daqueles que escutavam a nova mensagem de amor: a do Cristo. Mas não foi assim e acabaram por matar o mensageiro. E depois mataram ou perseguiram muitos dos seus seguidores. Fizeram-no contra a Boa Nova, contra o testemunho pela bondade.

A Boa Nova de Jesus foi a grande inovação da sua época, mas volvidos 2000 anos ainda são poucos os que a compreendem e aceitam como óbvia e evidente. É a resistência à verdade, à mudança, tal como refere Schopenhauer. E depois da Verdade (a Boa Nova) ter sido ridicularizada, foi violentamente combatida pelos algozes da liberdade. Os algozes eram aqueles que dominavam os mitos e viviam de privilégios e pelo poder. São tal como os egoístas e materialistas de hoje, aqueles que fazem do apego mundano e do poder o seu maior propósito. Estes indivíduos apenas se guiam pelas necessidades impostas pelos seus egos adoecidos. Negligenciam o apelo do seu Self (alma).

A Verdade trazida por Jesus retira o ser humano do centro do universo para nesse lugar colocar o amor. Uma ideia que ainda hoje é percecionada por alguns como forma de enfraquecer os fortes e prometer as coisas maiores de Deus aos oprimidos. Uma máxima que é contrária à própria Verdade, pois Deus a todos vê por igual. Afinal todos estamos sujeitos às mesmas leis, nomeadamente à de causa e efeito que impende sobre o nosso viver moral. Todos passamos por provas e expiações semelhantes face a circunstâncias semelhantes.

“Sim, a humanidade caminhou; o mundo progrediu. Não mais se pode dar a morte na cruz ou na fogueira aos enviados de Deus. Fecharam-se as masmorras e as salas de torturas, desapareceram os patíbulos. Entretanto, outras armas se levantam contra os inovadores, contra os porta-vozes da ideia nova. Essas armas são a chacota, o sarcasmo, a calúnia, a luta surda e contínua. (…) Soou a hora em que o homem não mais admite, no domínio do pensamento, outro soberano que não seja a sua consciência e a razão.” (p. 149) [1]

O Céu para os justos e o Inferno para os faltosos

Muitos foram aqueles que perseguiram, torturaram e levaram à fogueira os ditos hereges em nome de uma verdade construída pela ignorância e, pensando eles, em nome de Deus. Hoje, a ferocidade humana é menor, mas a ignorância sobre a nossa realidade espiritual ainda é elevada. Muitos ainda desconhecem o que significa promover a sua glória a Deus, pelo que o fazem por oferendas, seja na paróquia, nos caminhos de Fátima, ou na troca de promessas por bens materiais. A glória a Deus é a ascensão do Self na melhoria da conduta. É o desapego, a evolução espiritual pela individuação [2].

Porém, o equívoco mantém-se, inclusive sobre que é Deus, que julgam ser O justo, O punidor dos faltosos. Ainda há quem acredite que não há salvação possível para quem é causador de certos males, pelo que são merecedores do inferno, em oposição ao Céu dos justos. Será assim?

Vejamos. Se fosse, a alma não progrediria e o arrependimento seria escusado. E se progredisse haveria uma impossibilidade na concretização das anunciadas penas eternas (o inferno para os culpados).

A incoerência é ainda maior quando observamos que Jesus nunca referiu que o arrependimento não seria merecedor da graça do Pai. De facto, foi Jesus que pela oração do Pai-Nosso nos ensinou a dizer:

“Perdoai-nos, Senhor, as nossas faltas, assim como nós perdoamos aos nossos devedores.” (O Céu e o Inferno, Cap. VI, nº 5).

Em síntese, é incoerente a visão do Deus que nos sujeita a penas eternas, como errada é a ideia de Céu e de Inferno que põe o medo no lugar da razão. Tal como referido por Léon Denis (idem):

“A religião carece de bases racionais, em que possa edificar uma convicção forte. O espiritualismo experimental vem preencher essa lacuna e oferecer à alma contemporânea um terreno de observação, um conjunto de provas e de fenómenos, capaz de constituir apoio firme para as crenças do futuro.” (p. 308).

Crer é entender

Crer não é temer é entender, tal como refere Kardec: “a crença é um ato de entendimento que, por isso mesmo, não pode ser imposta” (O Céu e o Inferno, Cap. VI, nº 23).

Isso pressupõe aceitação, mas no sentido de se dar crédito para que se use o raciocínio e a informação que reside no nosso inconsciente – arquivo sobre a nossa natural existência divina. Por conseguinte, a crença deriva do raciocínio e não de algo que não é realizável pelo pensamento a partir do que lhe faz sentido. Ao fazê-lo, estamos a observar o nosso percurso de maturação espiritual. Este percurso, se feito pela compreensão da Boa Nova, pode ser apoiado pelo Espiritismo, pois ele promove a conciliação entre o espírito e as leis do amor, ou seja, entre a razão e o coração, contribuindo para o desenvolvimento de uma inteligência mais sensível e que permite elevar a compreensão da existência do todo a partir da parte, em que cada um se encontra. Neste sentido a crença é um ato de entendimento baseado no uso da razão.

Esta ideia está em oposição à da crença em Deus por temor, ou por fascínio pelo Divino, ou ainda de aceitação a partir de dogmas de fé, ou de medo pelos castigos Divinos e eternos. A crença respaldada no uso da razão faz apelo à fé raciocinada, pelo que não se fundamenta no nada, nem em dogmas. O seu fundamento está no esforço de compreensão sobre o facto de sermos seres espirituais finitos (tivemos um início, a partir da criação por Deus), e eternos (não se conhece o fim).

E se assim o fizermos saberemos que não nos temos de preocupar em provar que Deus existe, mas sim dar provas a Deus que existimos, pela conduta e merecimento pelo dom da vida recebido.

Referências

[1] DENIS, Léon, Joana D’Arc, Médium, 19ª edição, FEB, 1999.

Título: Joana D’Arc, Médium

[2] FRANCO, Divaldo Pereira, O amor como solução, Leal, 4ª edição, 2014.

Título: O amor como solução