Nascer não é uma estreia, é voltar

 

“Não exija dos outros qualidades que ainda não possuem” 

(Francisco Cândido Xavier)

Há muito que vários povos, a partir das suas religiões ou convicções, se referem a vidas passadas. Então já vivemos antes da vida atual que conhecemos? Sim. Então, por que nos custa tanto a aceitar? Depois desta revelação nos ensinamentos de Jesus e demonstração pela sua própria visita, em espírito, aos seus apóstolos (que o viram e ouviram pela mediunidade destes dias depois da sua morte física), vários factos históricos distorceram o que deveria ser apreendido por todos. Uma verdade muito importante por que altera o sentido de responsabilidade perante a vida e o comportamento para consigo mesmo e para com os outros. Desde logo o “vamos aproveitar ao máximo que só se vive uma vez” caia por terra. O mal que se faz a outros “sem que ninguém veja” também ganha outra dimensão, pois face a todas causas há sempre consequências que cada um vai viver. E foram estas constatações que levaram os indivíduos religiosos de outros tempos em concílio a alterar o que está assumido e escrito. Isto são factos históricos, não convicções, pelo que todos podem constatá-los. Mas já durante a sua vida Jesus dava testemunho da continuidade da vida e da nossa existência, em espírito, no lado de lá da vida – no plano espiritual. Fê-lo, por exemplo, neste diálogo com Judeus, que estes o questionavam: “Ainda não tens cinquenta anos, e viste Abraão?” A que Jesus respondeu: “Em verdade, em verdade vos digo que antes que Abraão existisse, EU SOU.” (João 8:57-58). Nesta resposta Jesus resume a verdade do nascer de novo, ou seja, do retorno à vida na Terra a partir de onde já se existe. Jesus, antes de nascer no corpo, já existia, em espírito, tal como cada um de nós antes de voltarmos à vida num novo corpo. Nascemos de novo com o propósito de continuarmos a evoluir como espírito que somos. E a cada reencarnação o espírito vive circunstâncias que visam essa evolução a nível moral e intelectual. Porém, não há culpa nem penas eternas face aos erros, mas sim responsabilidades a assumir. Neste sentido, vivemos circunstâncias que nos desafiam, que nos põem o cabedal moral à prova. E ao vivermos a dor, que se inculca no nosso inconsciente pelas vivências vamos reprogramando os nossos sentimentos e a perceção do mal face ao bem. A nossa opacidade moral por vezes esconde a nossa natural motivação pelo bem e o responsável pela força que nos contraria é o orgulho que por vezes nos bate aos pontos. E como lidar com isto? Pela força íntima, pela compreensão do propósito da vida, ou seja, pela empatia em vez de ser pelo interesse, pelo amor, que não tem de ser manifestado apenas pela forma romântica. Viver não é pagar débitos por castigo ou segundo uma justiça cega (ao género da pena de Talião), mas sim aprender, ligar, e abraçar as oportunidades de mudança com gratidão – em vez de ser por queixumes e pedidos de milagres. A oportunidade que a vida nos dá é fazer das dificuldades um instrumento de mudança pela aprendizagem que essas dificuldades nos trazem. Porém, para isso temos de aprender a ver o copo meio-cheio, em vez de meio-vazio. De facto, tudo decorre ao ritmo da aprendizagem de cada um e segundo as suas escolhas (o seu livre-arbítrio). E como nem sempre escolhemos evitar o erro, o caminho é por vezes mais duro. Segundo se sabe, ao início, quando Deus criou o ser humano todos eramos iguais, ignorantes e sem conhecimento. Todos partimos do mesmo ponto e com as mesmas oportunidades, pelo que desde então e até aqui foram sempre as nossas escolhas a moldar o presente. Não foi a sorte, o outro, ou o acaso. Nós, enquanto fazedores e herdeiros de nós mesmos, dos nossos próprios genes (espirituais). Isto, e não como resultado do acaso, ou dos genes dos nossos pais ou familiares – que por vezes culpamos por desconhecimento que a causa está nos nossos atos no passado e não na fecundidade do corpo. Agora, uma coisa é fantástica, as similitudes entre estes genes de família são uma representação da beleza da criação e do contexto proporcional entre vida espiritual e física e é sobre esta perspetiva se há de debruçar, e não apenas sobre a análise material da vida, pois estará sempre incompleta. Vale a pena ler ou escutar algumas palestras do médico cirurgião brasileiro Paulo César Fructuoso. Sobre os erros que cometemos (em vidas passadas) recai a lei de causa e efeito, que estabelece a referida proporcionalidade entre as circunstâncias vividas e as oportunidades que a vida oferece. Esta lei divina ilustra a justiça, o equilíbrio e a bondade de Deus, que nunca se ofende com as nossas quedas morais e sempre oferece novas oportunidades. Afinal, todos estamos destinados à evolução. Por conseguinte, ninguém nasce vítima do infortúnio, ou em vantagem ou desvantagem em relação a outros. Somos todos iguais perante a Lei divina, mas a viver a circunstância que melhor se adequa ao caminho de cada um face à forma como já viveu e se adiantou moralmente e intelectualmente. E se ainda achamos o contrário é porque continuamos a observar a realidade a partir da lente terrena, da matéria, ignorando a espiritual. Nascer não é uma estreia, é voltar, sendo o ponto de partida o plano espiritual, não a Terra. Tudo isto está devidamente explicado nas obras de Allan Kardec, tal como sucede no livro Obras Póstumas [1]:
As almas ou Espíritos progridem mais ou menos rapidamente, mediante o uso do livre-arbítrio, pelo trabalho e pela boa vontade. A vida espiritual é a vida normal; a vida corpórea é uma fase temporária da vida do Espírito, que durante ela se reveste de um envoltório material, de que se despe por ocasião da morte. O Espírito progride no estado corporal e no estado espiritual. O estado corpóreo é necessário ao Espírito, até que haja galgado um certo grau de perfeição. Ele aí se desenvolve pelo trabalho a que é submetido pelas suas próprias necessidades e adquire conhecimentos práticos especiais. Sendo insuficiente uma só existência corporal para que adquira todas as perfeições, retoma um corpo tantas vezes quantas lhe forem necessárias e de cada vez encarna com o progresso que haja realizado em suas existências precedentes e na vida espiritual.” (1ª parte – As cinco Alternativas da Humanidade, cap. V – Doutrina Espírita).
E sobre a questão 13 desta mesma obra, “qual a missão do Homem Inteligente na Terra?” Os Espíritos responderam: “Usar essa inteligência em benefício de todos.” (idem, cap. VII, item 13). Isto pressupõe a ação pelo bem, pelo que o verdadeiro Homem de bem pratica a lei de justiça, de amor e caridade interrogando, ainda, a sua própria consciência sobre os seus atos, mas também sobre:
se não violou essa lei, se não cometeu o mal, se fez todo o bem que podia, se não deixou escapar voluntariamente uma ocasião de ser útil, se ninguém tem do que se queixar dele, enfim, se fez aos outros aquilo que queria que os outros fizessem por ele. Tem fé em Deus, na sua bondade, na sua justiça e na sua sabedoria; sabe que nada acontece sem a sua permissão, e submete-se em todas as coisas à sua vontade. Tem fé no futuro, e por isso coloca os bens espirituais acima dos bens temporais. Sabe que todas as vicissitudes da vida, todas as dores, todas as decepções, são provas ou expiações, e as aceita sem murmurar. O homem possuído pelo sentimento de caridade e de amor ao próximo faz o bem pelo bem, sem esperar recompensa, paga o mal com o bem, toma a defesa do fraco contra o forte e sacrifica sempre o seu interesse à justiça. Encontra sua satisfação nos benefícios que distribui, nos serviços que presta, nas venturas que promove, nas lágrimas que faz secar, nas consolações que leva aos aflitos. Seu primeiro impulso é o de pensar nos outros., antes que em si mesmo, de tratar dos interesses dos outros, antes que dos seus. O egoísta, ao contrário, calcula os proveitos e as perdas de cada ação generosa.” (idem, cap. XVII, item 3).
Nascer de novo e perceber isto é mudar a luz lançada sobre a realidade, mesmo que interpretada à luz da tradição sociocultural e religiosa que ainda se encontra institucionalizada. É importante notar que se mudarmos a incidência da luz sobre um dado objeto (a realidade), a sombra projetada a partir do objeto altera-nos a perceção sobre esse mesmo objeto. Alterar essa perspetiva é mudar a interpretação da realidade, porém, a realidade é a mesma. Viver com mais bens materiais e conhecimento não é uma vantagem, mas sim uma responsabilidade. Viver com menos não é uma desvantagem, mas uma oportunidade de melhoria, pois face à escassez somos mais vulneráveis, o que nos ajuda moldar a melhoria. A vulnerabilidade deixa o nosso ego mais liberto, pelo que o egoísmo e o orgulho ficam menos disponíveis para nos cercar. O próprio materialismo (o ter coisas), quando mais escasso, tem menos possibilidade de excitar as debilidades do ego. A vida é, pois, uma realidade que se concretiza a partir de duas dimensões que se interligam: a corpórea e a espiritual, em que a segunda justifica a primeira, não o contrário. Uma reflexão sobre isto ajuda-nos a reforçar o propósito a dar aos nossos dias, nomeadamente nos extremos. Quando tudo nos surge como muito difícil, ou quando nos sentimos invencíveis, em nada parece que possível para nos deter, vigiemos. Tudo o que temos nesta vida é-nos entregue por empréstimo e como responsabilidade, não é uma vantagem, nem é definitivo e é-nos entregue apenas para o bem. Se fazemos mau uso vamos gerar más consequências, na dimensão do uso, nunca como castigo. Estamos sempre em controle, temos o livre-arbítrio, pois, voltamos para continuar a aprender.  

Referências

[1] KARDEC, Allan, Obras Póstumas. FEB.
Título: Obras póstumas